November 04, 2014

“Há consenso de que 2015 será um ano difícil, de ajuste econômico”

Fonte: A Tribuna - 2/11/2014, página C-1, Economia

# Entrevista:  Eduardo Carvalhaes Júnior - Diretor do escritório de comércio cafeeiro Eduardo Carvalhaes

A partir de hoje A Tribuna passa a publicar aos domingos, até o início do próximo ano, entrevistas com empresários da região, que analisarão o cenário econômico para 2015 sob o ponto de vista do setor que representam. O objetivo é mostrar aos leitores os rumos da economia na Baixada Santista e no País no próximo ano.

Passado o período eleitoral, as projeções para a economia brasileira ainda são um mistério. Esta é a opinião do empresário Eduardo Carvalhaes Júnior, diretor do tradicional escritório de comércio cafeeiro Eduardo Carvalhaes, referência em Santos.

Engenheiro químico de formação e administrador experiente, o empresário recebeu a reportagem em seu escritório, na Rua do Comércio, para falar das incertezas do cenário econômico do ano que vem e dos desafios do segundo mandato de Dilma Rousseff.

“Há um consenso de que deverá ser difícil. A percepção de crise existe”, afirma.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

AT - Qual a perspectiva para a economia em 2015?

É um pouco cedo. Nós não temos a menor ideia de como é que a Dilma vai tocar isso daqui para frente. 2015 vai ser difícil. Tanto no PT quanto no PSDB, essa percepção de crise existe.

AT - A economia do próximo ano dependia das eleições?

O Aécio (Neves, candidato vencido na última eleição presidencial) tinha uma percepção maior do que fazer, porque tinha uma equipe sólida de economistas ao lado dele. Mas a reação da Dilma, de aumentar os juros três dias depois de ganhar as eleições, mostra que eles também tinham a consciência de que não havia escapatória. Ninguém esperava isso, até porque não existe nem mesmo um consenso se era a melhor hora de aumentar. Então você escuta que o (ex-presidente) Lula mandou uma listinha de três nomes para ministro da Fazenda para a Dilma e dois deles são banqueiros. É necessário colocar a economia do País no trilho.

AT - Qual a receita para chegar até esse caminho?

O Brasil vai precisar de poupança externa e vai depender muito de vender credibilidade. Existe dinheiro no mundo sobrando atrás de bons investimentos e a nossa infraestrutura precisa disso.

AT - O que são bons investimentos para o mercado?

É aquele que você coloca o dinheiro e tem certeza que vai voltar. Para o mercado e para a pessoa comum também. Quando você tiver um dinheiro sobrando, vai investir naquilo que dá a certeza de retorno. O Brasil tem que se mostrar confiável para esse capital. Ninguém coloca dinheiro onde não é seguro. O governo não quer perder o grau de investimento. Muitos desses fundos de investimentos do mundo inteiro têm em suas regras que só podem investir em lugares que possuem uma avaliação do grau de investimento. Não é só uma questão de imagem junto ao mercado. É uma questão que sem essa avaliação, você perde os melhores investimentos. Aí, só sobra aquele investimento de alto risco, os aventureiros, aquele capital que entra rápido para sair rápido.

AT - Em que áreas estão esses investimentos?

Temos de ter boas chances para quem quer investir em longo prazo em rodovias, hidrovias, portos e aeroportos. Lugares para investir não faltam no Brasil. Esse capital existe, mas para ele vir para cá depende de credibilidade do mercado. Henrique Meirelles no Banco Central, no início do mandato do Lula, deu essa credibilidade para o mercado.

AT - Aumentar os juros pode ser encarado como um retorno a essa política econômica?

Não sei. Essa subida de juros mais no calor, na hora dos ânimos acirrados da eleição, já mostra que o governo tem a percepção de que a coisa não está boa. Sair do calor da campanha e já vir para a sociedade essa questão de que o candidato a ministro da Fazenda virá do mercado financeiro, isso mostra que não está muito fácil de prever como será o próximo ano. Será um ano difícil, um ano de ajuste econômico.

AT - Esse era o discurso da campanha tucana. O senhor imagina como seriam as “medidas impopulares” propostas?

Os números da nossa economia, por causa da eleição, foram maquiados. Seria um ajuste de juros e de contenção de financiamentos que ninguém sabia até onde iria. Aécio indicou quem seria seu ministro, o Armínio Fraga, que funcionaria como o Henrique Meirelles, dando credibilidade ao governo. Muita gente criticou essa opção, mas quem se deu ao trabalho de ler as entrevistas que ele deu, viu que estava bem preparado para lidar com o momento de crise e fazer esses ajustes necessários.

AT - Quais seriam os reflexos?

Inicialmente, essa opção faria com que a nossa economia não crescesse muito em 2015. O sofrimento da população com esse ajuste vai depender de como estará nossa credibilidade com o capital internacional. Se o dinheiro vier para cá, a sensibilidade de dificuldade vai ser menor, se você põe dinheiro para terminar a Ferrovia Norte-Sul, que se arrasta desde o Governo Sarney. Essa obra, por exemplo, afetaria até mesmo a operação do nosso porto. Hoje, nossas estradas estão atoladas porque embarcamos aqui grãos que seriam levados para o Maranhão por meio dessa ferrovia. Os grãos do Centro-Oeste não são nossa vocação, mas nós embarcamos. Desce e depois sobe para seguir ao Hemisfério Norte. Isso encarece demais a soja. A hidrovia também só não avançou mais por essa falta de gestão.

AT - Além do aumento da taxa Selic, o que é que concretamente o governo deve fazer?

Eu não sou um especialista em macroeconomia. Sou engenheiro, não sou economista. A Dilma deixou claro que quem mandava lá era ela. Não dá para saber exatamente. Se ela escolhe uma pessoa consagrada do mercado, essa pessoa vai imprimir a sua marca, não vai ficar apenas repetindo o que a presidente mandar. Isso já mostra que ela deve abrir mão de uma parte da gestão da economia para um técnico. Isso não aconteceu até agora. O (ministro Guido) Mantega, coitado, sai desmoralizado.

AT- Como deverá ser a atuação do governo no Congresso?

Tudo vai ter que ser muito mais negociado. Lula chegava com uma força moral muito grande. Isso acabou. Eles chegaram com 3 milhões de votos a mais. Também está claro que o Brasil não atura mais a compra de apoio no Congresso, por meio de benefícios financeiros. Ninguém esqueceu o processo do mensalão. Agora, o governo vai ter que sentar e negociar.

AT- Onde está o problema da corrupção no País?

Ela está no mundo inteiro. O importante é ter as instituições funcionando. É preciso ter transparência. O Judiciário fazer a sua parte, o Legislativo e o Executivo também. Demonizaram esse presidente do Supremo (Joaquim Barbosa), mas ele fez o STF acordar. Nesse próximo processo (sobre as irregularidades na Petrobras), se tentarem colocar panos quentes,vai ser muito difícil.

AT- Essa crise chega na sua área? Chega no café?

Chega menos. Há 50 anos, a receita cambial do café era metade de toda a receita cambial brasileira. Hoje, se bater em 1% é muito. Ela não é nem a maior receita cambial do agronegócio. Apesar disso, o Brasil hoje é maior do que era nesse negócio. Continuamos sendo o maior produtor mundial e produzimos com muito mais qualidade. O grande estresse pode ser causado por essa seca no Sudeste brasileiro.

AT - Qual o entrave para um desenvolvimento maior da Baixada?

Agora volta a se falar em transporte hidroviário. Nós temos uma vocação para isso. Ligar Santos e Vicente de Carvalho, isso não é nenhuma novidade. Temos esse problema de estacionamentos das ruas. Estamos numa ilha. Aquele modelo de expandir as fronteiras da Cidade está esgotado. As pessoas vão atrás de serviço. O problema do transporte veio para ficar. O VLT vai mudar a região. Se você viajar o mundo, vai ver que o transporte sobre trilhos atrai as pessoas, valoriza o local por onde ele passa. O santista e o vicentino quando tiverem o VLT funcionando, eles vão se encantar. Qual o melhor jeito do pessoal que mora em Cubatão e trabalha em Santos se locomover? O transporte hidroviário seria muito importante, fundamental.

AT - Como seria possível conseguir isso?

Hoje, o modelo que funciona no Brasil contingencia os investimentos nas mãos do Governo Federal. Os governos locais deveriam ter mais condições de fazer e decidir aquilo que é mais importante para a região. Esse seria um passo importante, porque é difícil, muitas vezes, defender um projeto nosso em Brasília.

Confira a reprodução da entrevista

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