December 18, 2013

Expansão da Baixada Santista atrai empresas

Fonte: IG / 18/12/2013

Com crescimento/ econômico e populacional acima da média nacional, cidades nos arredores de Santos (SP) podem ter futuro próspero com a promessa do pré-sal

A prospecção de petróleo ainda nem começou, mas os ventos do mar já trazem boas notícias para a economia da Baixada Santista, no litoral paulista. Com um crescimento populacional de 4,3% – acima da média nacional de 3,6% entre 2012 e 2013–, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, a região tem chamado a atenção de construtoras e varejistas ansiosas para atender a nova população local.  

Em outubro deste ano, a geração de empregos, conforme mostram dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), foi mais de dez vezes maior que no ano passado. Foram 702 vagas geradas, ao passo que em 2012 foram apenas 42.

Esse movimento, no entanto, não aconteceu todo de uma vez. O Produto Interno Bruto dos Municípios (PIB), divulgado pelo IBGE na última terça-feira (17), já aponta um crescimento bem acima da média em 2011. Enquanto o Brasil marcou um aumento de pouco mais de 10% no PIB entre 2010 e 2011, Mongaguá cresceu nada menos que 40%, impulsionada essencialmente pelo turismo da região.

De todo esse avanço, o setor de serviços evoluiu 60%, dando indicações claras do peso da sazonalidade sobre a cidade. Segundo Francisco Garreto, diretor do departamento de turismo da prefeitura de Mongaguá, há mais de dez anos o município aposta pesado nos visitantes. "Estivemos em mais 70 feiras de turismo nesses anos. Esse resultado é fruto de um investimento específico desde 2001", diz. A reboque dessa fluxo de turistas, o comércio e a construção civil também saíram ganhando. "Hoje já temos Cacau Show, Hering, Kallan, entre outras marcas que ainda não tinham loja por aqui", diz. 

Com menor efeito da sazonalidade, cidades como Itanhaém e Praia Grande ultrapassaram os 25% de crescimento econômico. Peruíbe, São Vicente, Santos e Bertioga também não fizeram feio, com crescimento de mais de 13%. Guarujá e Cubatão, no entanto, encolheram respectivamente 0,35% e 10,4% em 2011.

Crescimento: de dentro para fora

Com tanta gente a mais nas cidades, o mercado imobiliário sai no lucro. Rafael Garcia de Queiroz, sócio da Construtora JR, tem nove empreendimentos em construção na região – são oito condomínios na Praia Grande e mais um em Santos. A preferência pela Praia Grande tem a ver com o preço do terreno que ainda não sofreu com a especulação imobiliária que já atinge Santos e São Vicente. “O preço do metro quadrado chega a ser 40% menor que o de Santos”, diz. Um cliente que compra um imóvel em Santos precisa de, em média, um salário de R$ 20 mil, ao passo que com um salário de R$ 10 mil já é possível dar um partir para a casa própria na Praia Grande.

Queiroz entende que a busca por melhor qualidade de vida tem motivado a migração de paulistas para o litoral – em especial aqueles vindos da capital e do ABC Paulista. “Esses são 90% dos nossos clientes”, diz. Geralmente, o imóvel tem por primeira função hospedar a família no veraneio, mas logo vira morada oficial de parte do grupo. No caso dos santistas, a fuga é por um estilo de vida mais saudável e mais barato. “O colégio é mais barato, o condomínio também”, diz. “Esses clientes que compram imóveis na Praia Grande, por exemplo, geralmente não trabalham lá.”

Essa migração de moradores com atividade profissional em cidades com economia mais pujante – como é o caso de São Paulo, Santos e o ABC –, está provocando um aumento gradual no poder aquisitivo da população local. Não só porque os novos moradores puxam a média para cima, mas principalmente porque as novas demandas desses cidadãos resultam em um crescimento espontâneo no número de empresas e serviços oferecidos na região.

Comércio e varejo

Exatamente por isso que José Augusto Soares, presidente da Associação Comercial Empresarial da Praia Grande, só vê motivos para comemorar. “Estamos em um momento de transição da economia da Praia Grande”, diz. São 320 mil habitantes na cidade, que já encosta em Santos nesse quesito, com 400 mil habitantes. 
Redes como Renner, Roldão, Kalunga e Decatlhon já fincam suas raízes na região, para aproveitar esse crescimento de população e de poder aquisitivo entre os moradores. “Os comerciantes precisam estar muito atentos a isso para não perder a oportunidade de crescer”, diz. Um dos símbolos da região, a Avenida Marechal Mallet, que era uma rua residencial, virou uma rua com vocação para bares e serviços. Soares acredita que esse tipo de crescimento deverá durar mais dois ou três anos para começar a dar sinais de esgotamento das oportunidades.

Entre as empresas mais otimistas está a rede Roldão, de supermercados no modelo atacarejo. Neste ano, as lojas da Baixada fecharão o ano com crescimento entre os 50% e 60% frente ao ano passado, na expectativa de Artur Raposo, diretor comercial e de logística da rede. “São as três lojas com maior desempenho em toda a nossa rede”, afirma Raposo. O executivo não divulga o faturamento das unidades, que atendem 150 mil pessoas por mês.

Para Raposo, boa parte desse otimismo tem a ver com a retirada de estímulos fiscais para operações de importação no porto de Itajaí, em Santa Catarina, no ano passado. “Tem mais empresas operando pelo porto de Santos agora, então acaba gerando mais fluxo de dinheiro e pessoas para a região”, diz.

Raposo nota crescimento não só no número de clientes atendidos pelo Roldão, como uma alta significativa no tíquete médio de cada cliente – em Santos, onde o faturamento disparou 51% em 2013, o gasto real por cliente aumentou 20%, descontada a inflação. Na loja da Praia Grande, o faturamento cresceu 30%, com 16% a mais em número de clientes e tíquete médio 9% maior. “Nós entendemos que esse crescimento não tem nada a ver com os aumentos nas vendas de veraneio”, afirma.

Para o próximo ano, no entanto, o prognóstico de Raposo não é dos melhores. Principalmente graças ao processo eleitoral em novembro. “As obras estruturais dos anos eleitorais, que acabam fazendo circular dinheiro, vão secar”, afirma.

Um indicador de crescimento empresarial

A Kalunga também é uma das redes que têm reforçado sua posição na região. Desde 2010, a Baixada Santista tem sido um dos principais alvos da companhia. Atualmente, a empresa tem uma loja em São Vicente, uma no Guarujá, uma na Praia Grande e a principal em Santos, cidade que deve receber uma nova unidade já no próximo ano.

Hoslei Pimenta, diretor comercial da Kalunga, lembra que geralmente as lojas apresentam crescimento significativo pelos primeiros quatro anos, quando a curva começa a perder o ritmo. Ao contrário, as lojas da Baixada Santista não perderam o prumo. “Todas elas superaram as nossas expectativas em termos de faturamento, principalmente a de Santos”, diz. A segunda loja na cidade será inaugurada no Gonzaga, dentro de no máximo seis meses. Somente neste dezembro, a Kalunga já atendeu mais de 18 mil clientes nas lojas da Baixada – e este talvez seja um dos piores para a rede, que fatura pesado no período de volta às aulas. Para a região, Pimenta acredita que ainda haja espaço para mais duas lojas – não mais que isso.

Mais que uma empresa que aposta na região, a Kalunga é um sinal claro do desenvolvimento do empresariado local. “Mais de 60% dos nossos clientes são pessoas jurídicas, porque oferecemos suprimentos de escritórios para empresa”, diz Pimenta, evidenciando mais um claro sinal de que a economia por lá cresce de dentro para fora. “É um reflexo da criação de novas empresas.”

A rede já soma 120 unidades e planeja abrir mais cinco unidades antes do fim de 2013. Para 2014 são seis lojas já previstas. Ao contrário do chororô generalizado sobre a desaceleração da economia nacional, o gestor da Kalunga não vê 2013 com pessimismo. “Para nós essa crise não aconteceu. Estamos crescendo quase 20% neste ano”, afirma. “Essa coisa de crise talvez tenha sobrado mais para os setores muito dependentes de crédito.”

Detroit brasileira

Com o começo dos trabalhos no pré-sal, esse movimento tende a aumentar, especialmente graças à migração de funcionários de todas as empresas que estarão envolvidas na prospecção do petróleo.  "É uma grande mudança que deve acontecer de forma mais gradativa", diz Sandro Maskio, cordenador de Estudos do Observatório Econômico da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp).

O pesquisador alerta, no entanto, para o risco de um crescimento desordenado. "É fundamental que a região desenvolva sua capacidade de inovar, especialmente na estrutura produtiva de petróleo e gás, como uma forma de ganhar sinergias com os elementos da economia da região", afirma. Para Maskio, o ABC perdeu o "bonde da história" ao receber as montadoras sem investir pesado nos mercados que operam em sintonia com a indústria automotiva. "A exemplo de Detroit, perdemos o momento ideal."

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