Fonte: DCI - http://www.dci.com.br/ - 8/5/2015 - 5h00
# Apesar de esboçar ligeira recuperação nas vendas ao exterior, a indústria local deve demorar um tempo considerável para conquistar novos mercados e reduzir a dependência da Argentina
Juliana Estigarríbia
São Paulo - A indústria automotiva começa a esboçar sinais de recuperação nas exportações. Mas para manter a trajetória de crescimento, o setor precisa enfrentar obstáculos para fechar novos acordos comerciais e também de logística.
De acordo com o diretor da consultoria automotiva MSXI, Arnaldo Brazil, a questão logística é o principal entrave para alavancar as exportações de veículos no País.
"O custo de exportar para a América do Sul é absurdo. Temos graves problemas de competitividade nesse sentido", afirma o consultor.
Ele acrescenta que o desejo da indústria brasileira de aumentar as exportações para a África, por exemplo, também esbarra no custo do frete. "Como a rota ainda é pouco usada, acaba saindo muito caro vender para o continente", avalia.
Segundo dados divulgados nesta quinta-feira (07) pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), as exportações somaram 108,5 mil unidades no acumulado do ano, um recuo de 1,2% em relação a igual período de 2014. A queda, porém, se mostra menos acentuada do que o setor vinha registrando.
O presidente da entidade, Luiz Moan, afirma que o desempenho se deve ao aumento das vendas para destinos diferentes da Argentina, que representam hoje pouco mais de 70% das exportações do Brasil. "Temos que diversificar os destinos e buscar novos acordos comerciais", disse o executivo.
No entanto, para o diretor da MSXI, o negócio automotivo requer um longo tempo para consolidar exportações. "Como veículos são regulados por cada país, os produtos brasileiros precisam estar de acordo com a legislação de cada destino", diz Brazil.
Ele explica que, por esse motivo, a plataforma global é tão importante. "As montadoras que já trabalham dessa forma sairão na frente", pontua.
Além disso, o consultor acrescenta que novos acordos esbarram em outras questões. "As negociações com o bloco europeu não saem do lugar por conta da Argentina, que já fechou acordo com a zona do euro", explica. Segundo ele, o perfil do produto brasileiro se aproxima muito do comercializado na Europa, o que facilitaria as vendas para a região.
Ele lembra ainda que o Brasil perdeu a oportunidade de negociar um acordo com os Estados Unidos, há alguns anos. "Hoje, quem domina este mercado gigante é o México", pondera o consultor.
Início de retomada
Após a renovação recente do acordo com o México, a indústria automotiva já comemora os resultados, ainda que sobre uma base baixa. No acumulado do ano, as vendas ao país latino cresceram 133%. Moan ressaltou que o setor tem exportado também para países como Peru e Colômbia.
No entanto, o anseio da indústria local de voltar ao patamar de exportações de meados de 2005 - de cerca de um milhão de unidades - pode demorar muito mais do que as montadoras gostariam. "Além da conquista de novos mercados, as marcas terão que adequar custos por pelo menos dois anos para ter o mesmo desempenho", avalia Brazil.
O aumento da exportação é justamente a principal saída para compensar a queda brusca no mercado doméstico e manter o nível de produção no País, que no acumulado do ano registrou o pior desempenho desde o mesmo período de 2007, quando foram produzidas 828 mil unidades.
"Mesmo com a redução do quadro de pessoal, ainda há excedentes", observa o presidente da Anfavea. Com históricos 50 dias de estoques, o setor não para de decretar medidas de ajustes. Nesta semana, a Fiat colocou em férias coletivas 2 mil funcionários em Betim (MG), enquanto Ford e Volkswagen anunciaram suspensão temporária do contrato de trabalho (lay-off) para mais uma parcela de empregados.
Ainda ontem, a Volvo divulgou proposta para corte do segundo turno em Curitiba (PR), além de reajustes de salário e participação nos lucros para evitar a demissão de cerca de 600 funcionários. No entanto, as medidas ainda estão em análise pelo sindicato local.
Apesar do cenário quase catastrófico, Moan afirma que a tendência é de melhora principalmente com a perspectiva de anúncio das medidas de ajustes fiscais. "Uma vez sabendo as regras do jogo, o mercado terá mais confiança e, consequentemente, as vendas devem voltar a crescer", diz.
Ele acrescenta que o crédito está ainda mais restrito no mercado, justamente devido à falta de clareza no cenário econômico. "Os bancos são o grande vetor de confiança e, sem visibilidade, essas instituições se tornam mais restritivas", comenta o dirigente.
Moan acredita que a aprovação total do pacote de ajustes fiscais não deve passar do mês que vem. "Com isso, o quadro deve melhorar", analisa.
Importações
Os emplacamentos de veículos importados também têm registrado queda. Segundo a Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa), as vendas do setor alcançaram 26,8 mil unidades de janeiro a abril, recuo de 20,1% em relação a igual período do ano passado.
"Ainda estamos trabalhando com números muito baixos e, se não tivermos uma clara mensagem de que os ajustes fiscais necessários serão aprovados, os resultados dos próximos meses seguirão essa mesma tendência", afirmou em nota o presidente da Abeifa, Marcel Visconde.