August 27, 2014

‘Enfrentar a Amazon é como lutar com um exército de robôs’

Fonte: Brasil Econômico - 26/8/2014 - 8h56

# Esta é a opinião de Jason Merkoski, que ajudou a desenvolver a tecnologia do e-book usada hoje e a lançar as três primeiras versões do leitor digital da Amazon, o Kindle

Rodrigo Carro

rodrigo.carro@brasileconomico.com.br

Se atualmente milhões de pessoas ao redor do mundo leem livros virtuais usando leitores digitais, isso se deve em grande parte ao trabalho de Jason Merkoski. Pioneiro dos e-books, o norte-americano estudou matemática teórica no MIT e acabou seduzido por uma start-up promissora nos anos 90: a Amazon. Foi o primeiro “evangelizador-chefe” da empresa, onde ajudou a desenvolver a tecnologia do e-book usada hoje e a lançar as três primeiras versões do leitor digital da Amazon, o Kindle. Merkoski, que esteve no país para o 5º Congresso Internacional CBL do Livro Digital, deixou a empresa em 2011. E se arrepende de algumas coisas.

- Quanto tempo os livros digitais vão levar para se popularizar no país?

No Brasil, os e-books começam a ser adotados. Estamos ainda no início, à medida em que os livros começam a ser digitalizados. Talvez, neste ponto, apenas de 1% a 3% da população (brasileira) leia livros digitais, mas em três anos este percentual será de 50%. Pelo menos nas principais áreas metropolitanas. O que eu vi, em cada país que os e-books foram adotados — nos Estados Unidos, na Inglaterra, no Japão, na Coreia do Sul, na Alemanha — foi que, independentemente dos fatores demográficos, cerca de três anos após a introdução do conteúdo digital, um número grande pessoas, aproximadamente a metade (da população), nas principais áreas metropolitanas, nas grandes cidades, estava usando e-books ativamente.

- A palavra escrita vai simplesmente desaparecer?

Sim, infelizmente, é o que eu acredito. Sou um escritor e, nos anos 90, eu era romancista antes de começar a trabalhar com tecnologia na Amazon. Sempre fui apaixonado por livros e romances. Hoje, mais e mais pessoas estão lendo não-ficção e se voltando para a leitura de conteúdo aberto, como a Wikipedia ou livros-texto abertos. E, mesmo indo além disso, na direção de coisas que são de natureza audiovisual, por exemplo, há um movimento nos Estados Unidos chamado de Khan Academy em que as pessoas assistem vídeos no YouTube e aprendem com eles a respeito de assuntos como física, matemática, leitura. É tudo feito por meio de vídeos online. Se eu olhar adiante 15 ou 20 anos, eu realmente acredito que a palavra escrita vai perder força mas nunca desaparecer completamente, porque é uma grande ferramenta para expressar as ideias. É uma ferramenta muito barata para autores. Mas acho que coisas novas, como sentar em frente a uma câmera de vídeo com microfone e conversar, vão se tornar uma maneira de as pessoas se relacionarem. É como uma volta da narrativa oral, do contador de histórias. Quando todos nós sentávamos ao redor da fogueira, dez mil anos atrás, para falar da caça, dos animais que matamos, e inventávamos histórias sobre os deuses, mitos primordiais.

Parte do prazer de comprar um livro, numa livraria, é manuseá-lo, sentir o cheiro do papel, ler a orelha. O sr. acredita que no futuro todas as livrarias serão virtuais?

Eu realmente acredito que este será o caso. Estou vendo isso acontecer durante a minha vida, o que é muito triste. Eu me sinto muito culpado. Quando eu trabalhava na Amazon, estava construindo os e-books e ajudando a criar um admirável futuro novo. Mas ao mesmo tempo, nos últimos anos, muitas das minhas livrarias prediletas fecharam. Isso é muito triste. Não só porque todas as livrarias serão virtuais mas porque haverá apenas três e poucas companhias controlando tudo. Isso significa que haverá muito menos opções para os consumidores. Temos de ser muito cautelosos com relação a isso, culturalmente.

- E qual a proporção de livros digitais e de papel nas vendas nos Estados Unidos?

Quase meio a meio. Um dos desafios em relação aos e-books é que muitos livros que estão na forma impressa ainda não foram disponibilizados em formato digital. Se olharmos por exemplo para a difusão da TV ou dos smartphones, a tecnologia começa pelos inovadores, algo em torno de 5% da população. Depois, alcança os early adopters (usuários iniciais), que são mais 15% da população. Em seguida, vêm a maioria inicial. Para a eletricidade, por exemplo, demorou 75 anos para esta inovação alcançar 99% da população. No caso do rádio, foram necessários 40 anos e no da internet, cerca de 15 anos.

- E no caso dos e-books?

Quando você olha para os e-books, sempre que são introduzidos num país, se expandem rapidamente. (A popularização) vai levar bem menos de 15 anos, mas ainda não temos tempo suficiente para avaliar quanto tempo esse processo irá durar. Meu palpite é de que a penetração do conteúdo puramente digital até o patamar de aproximadamente 90% vai se dar dez anos depois da introdução da tecnologia. Então eu diria que isso vai acontecer por volta de 2017, 2018.

- Com a popularização da tecnologia, quase qualquer um pode publicar um livro digital, ainda que num formato básico. Isso não ameaça diretamente as editoras?

Uma das coisas que eu me pergunto é sobre as pequenas editoras independentes. É preciso garantir que as pequenas editoras e as independentes sobrevivam. Mas eu me preocupo com isso. Em última instância, eu olho na minha bola de cristal, e ainda vejo que grandes editoras que continuam a se dar bem, porque conhecem muito bem o negócio. Elas entendem margens muito bem, estão nesse negócio há dez anos, têm contratos, conhecem o processo. E o negócio editorial é realmente um jogo de margem. Não há muito espaço para erro nem para o sucesso, também. É como ser muito bom em jogar blackjack num cassino, em que as suas chances são de 1% a seu favor. Se você durar o suficiente, vai aprender a jogar bem. Mas você precisa cometer um monte de erros para entender as probabilidades do jogo. Logo, vai ser bastante difícil para as pequenas editoras sobreviverem. As que vão se dar melhor são aquelas tecnologicamente avançadas, que reagem mais rapidamente ao desejo do consumidor. E que constroem produtos tecnológicos, sejam eles aplicativos ou sites. As pequenas editoras que vão se dar bem são aquelas que forem, parte editora e parte companhia de tecnologia.

- Quais serão os principais desafios das grandes cadeias de livrarias, como a Barnes & Noble?

Um dos maiores desafios delas será competir com a Amazon. É muito difícil competir com a Amazon. Em última instância, esse é um desafio que todos os varejistas têm, porque a Amazon tem sistemas de software muito inteligentes que estão continuamente varrendo a internet e verificando o preço dos livros. Então, se você é a Barnes & Noble e diminui o preço de um livro em um dólar, o software na Amazon, em meia hora, vai saber que você deu o desconto e reduzir o preço do mesmo livro em um dólar e um centavo. É como lutar uma guerra contra robôs. E os robôs da Amazon são muito bem projetados. Para jogar esse jogo e ser a Amazon, você precisa ter um software muito inteligente.

Hoje temos no mercado diversos modelos de leitores digitais, como o Kindle, da Amazon. Mas a tecnologia tem mudado com muita velocidade. Você acredita que no futuro esses leitores digitais irão utilizar tecnologias diferentes, como a holografia, por exemplo?

Deixe-me contar o que estou fazendo enquanto conversamos. Saquei minha câmera de vídeo e estou com ela apontada para mim, enquanto estou sentado do lado de fora do auditório, enquanto respondo suas perguntas. O que eu faço o tempo inteiro é levar para qualquer lugar que eu vá a minha câmera, com microfone, e gravar tudo o que eu digo. É um experimento que estou fazendo, com a meta em mente de criar um ponto de partida que ajude as pessoas a se mexerem em direção a esse tipo de conteúdo. Não acho que vai ser holográfico. Acho que as nossas vidas, enquanto nós as vivemos, vão se transformar em autobiografias em tempo real. Isso é mais que ser capaz de contar histórias. É também sobre ter especialistas à disposição. Se você é um professor ou um economista que realmente sabe muito sobre um tema e, ao longo do dia, você fala enquanto dá uma aula ou dá ideias enquanto conversa com seus amigos na hora do almoço, todas estas coisas estão sendo gravadas. E carregadas na nuvem, que é o que eu faço com as minhas gravações o tempo todo. Acredito que esse tipo de coisa vai emergir como uma nova forma de arte. O novo substituto para o livro, em última instância.

- Por quê?

O que nós queremos de um livro, em último caso, é uma conversa com alguém em quem confiamos. Seja porque confiamos naquela pessoa como um contador de histórias ou como um professor ou, ainda, como um especialista. Muitos dos softwares de inteligência artificial podem proporcionar isso. Realmente acredito que a próxima fronteira será as pessoas, elas mesmas, serem uma espécie de conteúdo. Não acho que será necessariamente holográfico, mas certamente será algo que virá após o livro.

A disputa entre a Amazon e o Hachette Book Group em torno dos preços dos livros vendidos pela varejista online é um sinal de que as editoras permanecem agarradas a um modelo de negócios ultrapassado? Qual será o desfecho dessa briga?

O que estamos vendo é algo como um oceano, que precisa da água do rio. Esta é uma briga entre a água doce do rio correndo para o mar e a água salgada do oceano entrando pelo leito do rio na maré alta. E você vê essa agitação forte causada pela pressão entre a água doce e a salgada. Nesse caso, a maneira antiga de fazer as coisas é representada pela Hachette, uma editora da escola antiga. Estamos vendo dois lados lutando pelo que acreditam estar certo. A Amazon, que francamente vai ganhar esta guerra, luta pelo que acredita. A Hachette se preocupa mais com os autores enquanto a Amazon está mais preocupada com os leitores. Mas adivinhe só: há muito mais leitores do que autores. Então, a Amazon vai ganhar. É triste para mim ser parte da indústria editorial e ver isso acontecer, ainda mais porque conheço as pessoas nessas teleconferências e sei a maneira como discutem o assunto. Mas também sei para que lado essas conversas estão indo. Eu realmente respeito muito a Hachette por fazer o que está fazendo e tentar lutar contra isso, mesmo que eu saiba que não vai terminar bem para eles.

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