December 22, 2014

Empresas usam escritórios para reforçar cultura e multiplicar negócios

Fonte: O Estado de S. Paulo - 22/12/2014 - 3h00

FERNANDO SCHELLER - O ESTADO DE S. PAULO

Embora gestores ainda priorizem o custo na hora de escolher um escritório, a mentalidade começa a mudar: pressionada a buscar novas soluções para clientes, Oracle Brasil usou o espaço de trabalho para aumentar a produtividade e acabou exportando o modeloA computação em nuvem, de certa forma, colocou em xeque parte do negócio da gigante americana Oracle – cada vez mais, a empresa conhecida por serviços de servidores de armazenamento se vê obrigada a oferecer soluções customizadas de tecnologia para diferentes negócios. Foi necessário começar a pensar fora da caixa para atender às necessidades de diferentes áreas, como RH, vendas e logística.

Para inovar, dizem especialistas, a troca de ideias é necessária. E era exatamente o que não acontecia na filial brasileira, pois os funcionários ficavam a maior parte do tempo em casa, em home office.

Em 2012, ficou claro que era preciso mudar esse quadro. A intenção virou realidade em dezembro daquele ano, quando a companhia investiu R$ 165 milhões na compra de um edifício em São Paulo. O objetivo era atrair o pessoal de volta ao escritório para estimular a inovação. Dois anos depois da mudança, a empresa não só colheu resultados práticos – como a expansão anual acima de 10%, apesar da piora geral da economia – como também virou exemplo global: o novo escritório da Oracle em São Paulo estimulou mudanças semelhantes na Colômbia e até nos Estados Unidos.

A mudança na Oracle faz parte de uma tendência global de repensar os espaços corporativos. Um levantamento do braço de pesquisa da Steelcase, fabricante americana de móveis para escritórios, mostra que a mudança é lenta, mas perceptível. Hoje, a principal preocupação dos gestores na hora de definir um escritório é o aproveitamento de espaço, para redução de gastos. Porém, a questão da produtividade já aparece em segundo lugar (leia quadro acima). “Um escritório funcional pode ser uma alavanca para o negócio”, diz

Isabel Barros, líder do time de pesquisa da Steelcase na América Latina.

Tentando agradar a equipe e reduzir custos ao mesmo tempo, as empresas chegaram até a mandar os funcionários para casa: o “home office” se consagrou no setor de tecnologia, sendo adotado por empresas como Dell e IBM. Na visão de Isabel, o consenso atual “equilibra” um escritório físico atraente com a flexibilidade de horários. A Steelcase fez uma pesquisa global em que o home office aparece em terceiro lugar como as formas “alternativas” de trabalho mais buscadas, atrás de flexibilidade de horários e áreas “informais” dentro das empresas – como salas de jogos, por exemplo.

Exagero. O presidente da Oracle, Cyro Diehl, diz que uso do home office tinha ido longe demais na empresa. Antes da mudança para o novo edifício, a companhia estava confinada a quatro andares, dispostos de maneira pouco atraente. Como tinha a opção de ficar em casa, o funcionário não via motivos para ir à empresa. Mesmo se quisesse fazer isso, corria o risco de ficar em pé, já que os lugares eram insuficientes para acomodar sequer a metade da equipe.

Apesar de a Oracle ter reduzido o incentivo ao home office, Diehl afirma que isso não significa que os funcionários precisem bater cartão.

“Acho que chegamos a uma razão ideal de uma estação de trabalho para cada 1,7 funcionário. Não queremos todo mundo aqui, até porque nossa força de venda precisa estar na rua”, diz o presidente da Oracle. No escritório da companhia, ninguém é “dono” de uma estação de trabalho. A ideia é que as pessoas partilhem mesas e interajam. As conversas na cantina e o papo no cafezinho, antes vistos como improdutivos, hoje são incentivados.

O “antes” e o “depois” da estrutura da Oracle foi tão radical que precisou de uma introdução didática, feita com humor pela atriz Tatá Werneck. A estrutura hoje comporta diferentes formas de ocupar o espaço. Não há salas de reunião: para evitar o desperdício de tempo, as conversas são feitas em espaços bem no meio dos andares. Se o funcionário for ao escritório para serviço rápido, o ideal é que ele ocupe bancadas específicas, para não tirar o lugar das mesas de quem pretende ficar o dia inteiro. Se precisar de privacidade para fazer ligações, é possível usar cabinas.

Na avaliação dos funcionários, o resultado foi positivo. Em 2012, antes da nova configuração, 78% deles citavam o escritório como um ponto positivo para a permanência na empresa, segundo pesquisa do Instituto Great Place to Work, que escolhe as melhores empresas para se trabalhar no País. Em 2014, o índice chegou a 85%.

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