Fonte: Folha de S. Paulo - 6/10/2014 - 2h00
NICK BILTON
DO "NEW YORK TIMES"
Quando Steve Jobs dirigia a Apple, era normal que ligasse para jornalistas para ou elogiá-los por um artigo recente ou explicar os erros do texto. Fui o destinatário de alguns desses telefonemas.
Mas nada me chocou mais do que algo que Jobs me disse no final de 2010, depois de terminar a bronca pelo que eu havia escrito sobre deficiências do iPad. "Seus filhos devem adorar o iPad", eu disse, tentando mudar de assunto. O primeiro tablet da Apple mal chegara às lojas.
"Eles ainda não o usaram", ele respondeu. "Limitamos a tecnologia que nossas crianças podem usar em casa".
Tenho certeza de que minha reação foi uma exclamação de assombro, seguida por silêncio atônito. Eu imaginava que a casa de Jobs fosse um paraíso nerd; que as paredes fossem gigantescas telas de toque, a mesa de jantar fosse feita de telas de iPad e que iPods fossem distribuídos aos convidados para jantar como se fossem bombons.
Não, disse Jobs, nem perto disso.
Desde então, conheci alguns outros presidentes-executivos de companhias de tecnologia e executivos de capital para empreendimentos que dizem a mesma coisa: eles limitam estritamente o tempo de convivência de seus filhos com os aparelhos eletrônicos, e muitas vezes proíbem totalmente seu uso nos dias de semana, e impõem limites ascéticos durante os finais de semana.
Fiquei perplexo com esse estilo de criação de filhos. Afinal, a maioria dos pais parece adotar a abordagem oposta, permitindo que as crianças mergulhem no mundo dos tablets, smartphones e computadores, dia e noite.
No entanto, os executivos de tecnologia parecem saber de algo que os demais de nós não sabemos.
Chris Andersen, antigo editor da revista "Wired" e hoje presidente-executivo da 3D Robotics, fabricante de aeronaves de pilotagem remota (drones), instituiu limites de tempo e controles paternos sobre todos os aparelhos disponíveis em sua casa.
"Meus filhos acusam minha mulher e eu de sermos fascistas, preocupados demais com a tecnologia, e dizem que nenhum de nossos amigos têm regras parecidas", ele disse sobre seus cinco filhos, com idades dos seis aos 17 anos. "Isso é porque vimos em primeira mão os perigos da tecnologia. Eu os vi em pessoa, e não quero que o mesmo aconteça com meus filhos".
Os perigos a que ele se refere incluem exposição a conteúdo prejudicial, como pornografia, intimidação por parte de outras crianças e, talvez o pior, que eles se viciem em eletrônica, como seus pais.
Alex Constantinople, presidente-executiva da OutCast Agency, uma companhia de comunicação e marketing cujo foco é a tecnologia, diz que seu filho mais novo, que tem cinco anos, não pode brincar com eletrônicos durante a semana, e que os demais, com idades dos 10 aos 13 anos, só têm direito a usar os aparelhos 30 minutos por dia, nos dias de semana.
Evan Williams, fundador do Blogger, Twitter e Medium, e sua mulher, Sara Williams, dizem que em lugar de iPads, seus dois filhos mais novos têm centenas de livros (sim, em papel), que estão autorizados a ler sempre que quiserem.
Assim, como os pais e mães do mundo da tecnologia determinam os limites corretos para seus filhos? Em geral, a idade é o fator decisivo.
Crianças com menos de 10 anos são mais suscetíveis ao vício em eletrônicos, e por isso os pais não permitem qualquer uso de eletrônicos em dias de semana. Nos finais de semana, as crianças podem usar tablets e smartphones por entre 30 minutos e duas horas ao dia. E as crianças entre os 10 e os 14 anos podem usar computadores nos dias de semana, mas apenas para trabalhos escolares.
"Temos uma regra severa contra o uso de eletrônicos durante a semana, para nossos filhos", disse Lesley Gold, fundador e presidente-executivo do SutherlandGold Group, uma companhia de relacionamento com a mídia e análise de dados tecnológicos. "Mas quando eles vão ficando mais velhos, é preciso relaxar as normas porque precisam usar seus computadores para a escola".
Alguns pais também proíbem os adolescentes de usar redes sociais, exceto para serviços como o Snapchat, que apagam as mensagens depois de enviadas. Assim, os jovens não precisam se preocupar caso digam alguma coisa que possa prejudicá-los mais tarde em suas vidas, me disse um executivo.
Ainda que alguns pais de fora do ramo de tecnologia que conheço deem smartphones a crianças de apenas oito anos, muitos dos que trabalham no ramo da tecnologia esperam até que seus filhos cheguem aos 14 anos. E embora eles possam usar os telefones para chamadas e mensagens de texto, só passam a contar com planos de dados depois dos 16 anos. E uma regra é universal entre os pais do setor de tecnologia com quem conversei.
"Essa é a regra número um: sem telas no quarto. Ponto final. Nunca", disse Anderson.
Enquanto alguns pais do ramo tecnológico designam limites baseados em tempo, outros são muitos severos quanto ao que seus filhos podem fazer com seus aparelhos.
Ali Partovi, fundador do iLike e consultor do Facebook, Dropbox e Zappos, disse que deve existir distinção forte entre o tempo passado "consumindo", por exemplo assistindo vídeos no YouTube e jogando videogames, e o tempo passado "criando", nos aparelhos eletrônicos.
"Da mesma forma que eu não sonharia limitar o tempo que um filho pode passar pintando, tocando piano ou escrevendo, acho que seria absurdo limitar o tempo que a criança queira dedicar a criar arte no computador, editar vídeos ou aprender programação", ele disse.
Outros afirmam que proibições escancaradas podem ter efeito inverso ao pretendido e criar um monstro digital.
Dick Costolo, presidente-executivo do Twitter, me disse que ele e sua mulher aprovam o uso ilimitado de aparelhos desde que seus filhos os usem na sala de estar. Eles acreditam que limitações excessivas de tempo possam ter efeito adverso sobre os jovens.
"Quando eu estava na Universidade de Michigan, o cara que vivia no aposento ao lado tinha caixas e mais caixas de Coca-Cola e outros refrigerantes no quarto", conta Costolo. "Descobri mais tarde que isso era porque os pais não permitiam que ele tomasse refrigerantes, quando menino. Se você permite que seus filhos se acostumem a essas coisas, que problemas isso poderá causar mais tarde?
Tradução de PAULO MIGLIACCI