March 18, 2015

“Dormiremos no ponto” em relação à China até quando?

Fonte: Amanhã - http://www.amanha.com.br/ - 18/3/2015

# Quantas vezes, desde 1997, durante as palestras apresentadas por mim em grandes cidades de todo o Brasil, ouvi comentários sobre o que significaria para o setor cafeeiro do país se cada chinês tomasse uma xícara de café por dia?

Conexão Ásia | por Milton Pomar

O meu avô Pedro, o primeiro da família a ir à China, no longínquo ano de 1956, gostava de utilizar a expressão “dormindo no ponto”, para se referir a uma oportunidade perdida, por “bobeira”, a exemplo da utilizada no Rio Grande do Sul, do “cavalo encilhado”. Lembrei-me dele e dela agora, quando tentava classificar a inação do empresariado e governos do Brasil,em relação às muitas oportunidades perdidas nas relações comerciais com a China, nos últimos 20 anos, pelo menos, que é quase o tempo durante o qual me dediquei à arte de esmurrar pontas de facas tentando fazer com que as coisas acontecessem.

Quantas vezes, desde 1997, durante as palestras sobre a China, apresentadas por mim em capitais e grandes cidades de todo o Brasil, ouvi comentários, em tom de brincadeira e desejo, sobre o que significaria para o setor cafeeiro do país, se cada chinês tomasse uma xícara de café por dia... Dependendo da região, mudava o produto (leite, açaí, cachaça, suco de laranja), mas não o desejo e o tom de brincadeira de que os consumidores do maior mercado do mundo passassem a consumir um pouquinho cada um. Enfim, de algo que é a cara do Brasil e/ou que o país tem uma enorme vantagem comparativa em sua produção.

Pois bem, após 18 anos de trabalho na área, posso afirmar que “dormimos no ponto” em relação ao café, e, em breve, ao suco de laranja. E em relação à cachaça, tirando algumas iniciativas pontuais, continuamos na vontade. Leite nem pensar (estamos longe de conseguir competir com as empresas dos principais produtores e exportadores de lácteos). E sobre o açaí ainda é cedo para uma avaliação precisa. A província de Yunnan, no sul da China, tem aumentado a produção de café, estimulada pelo desempenho do Vietnã, seu vizinho, que tem colhido cerca de 15 milhões de sacas por ano – quase a metade do que o Brasil produz. Certamente o café vietnamita e de Yunnan não tem a qualidade do brasileiro, mas é barato e está próximo ao mercado chinês.

Apesar das campanhas promocionais de café solúvel, da Nestlé e de outras marcas nos supermercados em todo o país, das cafeterias da Lavazza, Starbucks etc em Beijing, Shanghai, Hong Kong, Nanjing, Guangzhou e em outras grandes cidades, e do bom e caro (caríssimo!) café encontrado na maioria dos hotéis internacionais, não há sombra da marca Brasil relacionada ao produto, diferentemente dos cafés da Colômbia, Jamaica, Etiópia etc. Hoje é provável que já não compense o segmento cafeeiro do Brasil investir para entrar no mercado chinês, pois encontrará muita concorrência com know how de China e muito produto barato, do próprio país e também fornecido pelo país vizinho.

Situação semelhante ocorre com a laranja, que está sendo plantada em grande escala, assim como fizeram com a maçã e estão fazendo com a uva. A China trabalha com a lógica da soberania alimentar, ou seja, produz tudo o que precisa, mesmo que a custo mais alto do que o mundo – como é o caso do leite, por exemplo. Significa que daqui a mais alguns anos não apenas a laranja da Flórida incomodará os citricultores paulistas, mas também a dos chineses, que sem dúvida serão os fornecedores principais de suas gigantescas indústrias de sucos, que utilizam o de laranja como base para misturas inacreditáveis.

“Dormir no ponto”, no caso do café, chega a parecer trocadilho, mas infelizmente é apenas a realidade. O curioso é que talvez a bebida estimulante do Brasil que tenha sucesso na China não seja o café, mas sim o chimarrão, porque é servido após um ritual de preparo que lembra o ritual do chá. Quem sabe os municípios produtores de erva-mate do Rio Grande do Sul não se animam a participar de feiras regionais na China com degustação e aulas sobre o preparo do “chima”?

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