July 25, 2014

Desafios do Rio

Fonte: Monitor Mercantil - 24/7/2014 - 20h18

OPINIÃO

Ranulfo Vidigal

Sem a menor pretensão de esgotar o assunto, face à complexidade de suas variáveis tentarei, neste breve ensaio, discutir o futuro da sociedade fluminense – unidade da federação responsável pela terceira maior renda per capita de nosso país.

Diante do poderio real do estado, que responde por 11% do PIB nacional e mais de 2/3 da produção de petróleo e gás de nosso país, e da magnitude de um orçamento anual de quase R$ 80 bilhões, o próximo governador, mantendo parcerias estratégicas no campo político, empresarial e social, deve reunir plenas condições de enfrentar os desafios relacionados às questões que afligem o cotidiano de cariocas e fluminenses.

Do Rio capital federal que foi até meados do século passado herdou-se a vocação para discutir os grandes problemas da nação e, de certo modo, negligenciar o debate crucial das questões locais. O papel do Rio na política nacional revelou impressionante declínio entre o final da década de 1960 e o começo do atual século, em paralelo, com a fuga de empresas e o esvaziamento econômico, cujo auge se deu nos anos 1990. No contexto de nosso presidencialismo de coalizão, somente muito recentemente o estado alcançou nível de nomeações ministeriais, similar aos tempos áureos.

A Cidade Maravilhosa, que tão bem recebeu um grande contingente de turistas na Copa do Mundo recentemente, ainda carece de um sistema público de transportes mais eficientes, uma telefonia melhor, ou um adequado saneamento das lagoas. Contudo, conta em seu território com grandes institutos de pesquisa, mão-de-obra qualificada, serviços de engenharia de primeira linha, uma indústria imobiliária dinâmica e oferta de cultura, lazer e esportes de boa qualidade.

Na dinâmica Região do Médio Paraíba, a indústria automobilística cresce gerando mais renda, tributos e empregos. Se, por um lado, o setor de transformação industrial perdeu espaço na arquitetura econômica da economia fluminense, o setor petrolífero, que paga bons salários, evoluiu e vai se expandir bem mais com a prospecção de óleo e gás, na camada pré-sal. Trata-se de uma chance única para adensar a cadeia produtiva, através do fortalecimento de setores como bens de capital, eletrônica e estaleiros.

Vale lembrar que a redução da produtividade dos reservatórios da Bacia de Campos pode representar, em futuro próximo, forte redução dos recursos indenizatórios, cuja importância não é desprezível, tanto para as finanças estaduais, quanto dos municípios limítrofes à exploração das jazidas. Nesse contexto, o Norte Fluminense, além do óleo e do gás, luta para reerguer sua indústria de açúcar e etanol, ao buscar superar o atraso relativo na produtividade agrícola, em relação ao Estado de São Paulo.

A Baixada Fluminense, com mais de 3 milhões de habitantes, é uma periferia ainda carente de transportes, água, saneamento e saúde pública, mas apesar desta elevada precarização, conta com novos investimentos de grande monta, como é o caso do Arco Rodoviário e da unidade de refino de petróleo pesado em construção pela Petrobras.

Na logística portuária, a economia fluminense tende a ganhar espaço com os portos da cidade do Rio, Angra do Reis, Sepetiba, bem como com a entrada em operação da unidade de exportação de minério de ferro na localidade do Açú/São João da Barra, reforçando a oferta de serviços às plataformas petrolíferas do norte fluminense.

Na questão ambiental, especificamente, um morador de nosso estado, ao produzir ou consumir energia, emite gases de efeito estufa em proporções muitas vezes inferiores, quando comparados aos padrões norte-americanos, europeus ou até chineses. Contudo nosso dever de casa, na defesa de nosso capital natural, exige cuidados especiais com a área remanescente de Mata Atlântica, melhor oferta de água, saneamento básico e coleta de resíduos sólidos. A beleza do encontro do mar com a serra clama por isso.

No aspecto relacionado à oferta de mão-de-obra, o padrão demográfico de nosso estado revela um gradativo envelhecimento populacional. Tal fato gera redução da produtividade, bem como aumentos dos gastos com saúde e previdência social. Como agravante somos ainda uma sociedade com alta desigualdade no acesso aos ativos básicos relacionados ao desenvolvimento genuíno. Como exemplo, cito o comportamento dos preços dos terrenos e imóveis, cuja alta acelerada de preços dificulta a execução de uma política habitacional que reduza o déficit de moradias entre as populações mais pobres, obrigados a morar em locais distantes, sem oferta adequada de transportes públicos e serviços básicos de saúde, água e saneamento.

Recuperar o papel do planejamento, através do fortalecimento da qualidade dos serviços oferecidos pela máquina pública, mediante a implantação de um padrão de excelência, e dotar o desenvolvimento regional de adequada governança são instrumentos que o próximo dirigente estadual terá a sua disposição para enfrentar os dois maiores desafios identificados pelo cidadão comum. Estes se relacionam à questão da segurança pública e da infra-estrutura geral, objeto inclusive de manifestações populares recentes.

A configuração produtiva internacional que surgirá com a superação da crise econômica atual exigirá do Brasil a busca de maior competitividade internacional, fortalecimento de seu mercado interno e desconcentração da renda, de modo a aproveitar o maior contingente de trabalhadores formalizados na economia, com cuidado especial no suprimento de energia e promoção da re-industrialização de nossa economia.

Praticando o pessimismo da razão, para obter um adequado diagnóstico das ameaças e oportunidades e o otimismo da ação, o próximo governador do Estado do Rio de Janeiro terá plena condição de responder à altura ao desafio que lhe espera.

Ranulfo Vidigal

Economista, mestre e doutorando em políticas públicas estratégias e desenvolvimento pelo Instituto de Economia da UFRJ.

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