Fonte: Brasil Econômico / 20/2/2014
Venho notando que quando coloco crédito no meu celular, no momento seguinte, começo a receber vários torpedos com promoções de todos os tipos
Cada dia chegam mais. E não é só neste momento. Eu já recebia muitas promoções, mas o meu celular anterior não tinha memória, então eu precisava apagar o tempo todo estas propagandas para receber as mensagens que realmente me interessavam. Só que o novo aparelho guarda todas as mensagens, então agora eu estou vendo, quantitativamente, como estas empresas enchem a paciência do consumidor.
Aliás, vem piorando, cada vez recebo uma variedade maior de mensagens publicitárias, da minha operadora e de outros lugares, do tipo: você ganhou bônus; cadastre seu favorito e ganhe mais; você está concorrendo a um smartphone, carro e casa; ganhe uma mesada de R$ 5 mil; aproveite o melhor bingo da internet; você ganhou um super desconto em um novo celular; você está participando do instala grátis; levou multa? entre no site e aprenda recursos para não pagar nenhuma multa; aqui é o Celso, precisando de um empréstimo consignado? fale comigo; e o mais impagável: tenho uma novidade para você, acesse o site www.minhasurpresa e veja o que te espera! Hã, hã... a curiosidade matou o gato, como se diz na minha terra...
Não gosto de receber, mas não sei como me livrar desse assédio. Resolvi escrever sobre isso, porém me veio uma dúvida: e se eu fizer parte de uma minoria que não gosta? Para ficar mais à vontade com o tema, resolvi perguntar na minha página do facebook se meus amigos também recebiam estas mensagens, se gostavam de recebê-las e se recebiam apenas de sua operadora ou de outras empresas também. Responderam 80 pessoas, e destas, 66 afirmaram que não gostavam de receber as mensagens (82,5%); apenas três pessoas disseram que gostavam (3,75%) e 11 (13,75%) afirmaram que não se importavam de receber ou deletavam sem ler.
Nos textos dessa maioria acachapante que disse não gostar de receber as propagandas, muitos salientavam que achavam estas mensagens publicitárias invasivas e desrespeitosas. Praticamente todas as pessoas consideram uma propaganda chata. Várias pessoas reclamaram dos horários que recebem as mensagens, dois dizendo que já receberam de madrugada. Quatro pessoas disseram imaginar que o número de seu celular deve ter sido captado em cadastros de promoções ou vendido pelas próprias operadoras de celulares.
Algumas opiniões que selecionei: "recebo duas, três mensagens seguidas, isso atrapalha, a gente pensa que é coisa importante", "estas propagandas parecem pegadinhas, coisa de malandro"; "fico irritada de ter que apagar"; "recebo dicas que não pedi"; "recebo mensagens que não tem nada a ver comigo"; "sempre acho que é golpe"; "não tem nada interessante". Enfim, uma profusão de frases que mostram a pouca credibilidade das propagandas e como elas irritam os consumidores.
Todas as 80 pessoas que responderam à minha pequena enquete disseram que recebem mensagens publicitárias da sua própria operadora e das outras. Três disseram que se cadastraram em suas operadoras dizendo que não queriam receber propagandas, mas nenhuma das empresas respeitou este bloqueio. E várias pessoas salientaram que gostariam de ter como bloquear o recebimento destas propagandas, pois, hoje, não há nenhum mecanismo que o consumidor possa utilizar para se livrar desse assédio.
Depois de ver estes resultados, fiquei pensando, será que nenhuma operadora de celular pensou em fazer uma pesquisa para ver se estava agradando o consumidor com estas ofertas? É estranho que nenhum departamento de marketing, nem das empresas que anunciam suas promoções e nem das operadoras, tenha pensado em medir o retorno destes anúncios, tanto em vendas, como na imagem da empresa. Quem disse que o consumidor gosta deste assédio? Qual a pesquisa que embasou esta estratégia de marketing? Ninguém nunca pensou que um nível de rejeição tão grande (82,5%) a estas mensagens impacta negativamente na imagem da operadora que as veicula?
Bem, se as empresas fizeram suas pesquisas, mediram o custo/benefício desta estratégia comercial na gestão da marca, e, ainda assim, o ganho financeiro com a veiculação destas propagandas é tão bom para as operadoras que vale a pena aborrecer tanto seus clientes, fazer o quê? Na verdade, estamos reféns das operadoras, já que todas veiculam estes anúncios. Elas querem ganhar dinheiro de qualquer forma, até entendo isso. Mas, mesmo sabendo que isso irrita o cliente, se utiliza da mesma arma mercadológica para suas próprias promoções. Na minha opinião, é um tiro no pé. A questão é que mudar de empresa é trocar de problema.
E nenhuma respeita a lei! O Código de Defesa do Consumidor dispõe no parágrafo segundo do artigo 43 que "a abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo deverá ser comunicada, por escrito ao consumidor, quando não solicitada por ele". Portanto, nem é o caso de o cliente precisar bloquear o recebimento de mensagens publicitárias. Pela lei, as operadoras precisam avisar aos seus consumidores, por escrito, que seus dados estão em cadastros para envio de propagandas. Eu nunca recebi nenhum aviso deste tipo. Por nenhum canal, nem pelo das mensagens, utilizado para os anúncios.
Mas, e aí, o consumidor vai entrar com uma ação individual no Juizado Especial Cível para parar de ser incomodado definitivamente? Pedimos que o Ministério Público tente um Termo de Ajustamento de Conduta (Tac) com as empresas de telefonia para que elas cumpram a lei e só enviem anúncios para os clientes que autorizarem expressamente? Tentamos com o Procon do Rio que, a exemplo do que existe no Procon de São Paulo, crie um cadastro onde o consumidor diga que não quer receber publicidade?
Estes são alguns dos caminhos legítimos para o consumidor lutar pelo seu direito de não ter seu celular invadido por propagandas indesejáveis. Uma luta chata, insana, que gasta tempo e dinheiro público, que mobiliza instituições que lutam brigas mais ferozes da sociedade de consumo. O melhor seria que as operadoras percebessem a ineficácia desta estratégia e ficassem do lado do consumidor, dando-lhe paz e cumprindo a lei.