Fonte: Brasil Econômico / 22/8/2013
Um dia depois de o Banco Central ter despejado US$ 6 bilhões para forçar uma queda inferior a 1% na cotação do dólar, a moeda americana disparou ontem 2,38%, vendida no fechamento a R$ 2,4510, maior cotação desde 9 de dezembro de 2008.
O que confirma a informação da coluna de ontem de que os "black blocs" do mercado estavam apenas tomando ar fresco antes de nova ofensiva.
E o badernaço ocorreu apesar de o evento legitimador ter merecido interpretações dúbias. Antes mesmo da publicação, às 15 horas, a ata da última reunião de política monetária do Federal Reserve (FED), a puxada do dólar já tinha sido suficiente para elevá-lo acima de R$2,43.
Lida a ata, constatou-se que os 12 membros votantes do FED persistem divididos quanto ao momento mais adequado para a redução das injeções de liquidez. A divisão não deve ser resolvida até o próximo encontrodo FED, o que esvazia a expectativa de corte dos estímulos já em setembro.
Mas os black blocs não queriam saber de racionalidade, queriam tirar o atraso e arrostar o BC. E o dólar, depois da ata, pulou a R$ 2,45. Quem comprou moeda de manhã a R$ 2,4019 (cotação mínima do dia) e vendeu à tarde, teve um lucro no dia de 2%. Isso equivale a quase três meses de rentabilidade pela Selic. Nada mal.
Exatamente no momento, às 15h45, em que o dólar atingia a cotação máxima de R$ 2,45, a taxa do T-Note de 10 anos - título público americano que serve de referência para o comportamento dos mercados globais - caía de 2,87% para 2,85%. Apenas no final do dia, novas interpretações da ata, enfocando a necessidade de o FED construir rapidamente um consenso em torno do afrouxamento quantitativo, empurraram os rendimentos para 2,89%, garantindo sobrevida ao teto do dólar.
A ata trouxe novos detalhes, na visão do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. "As opiniões parecem mais concentradas em dois pontos: paciência e proximidade do momento de se reduzir o ritmo de compras de ativos.
Chama atenção o cuidado com o uso das palavras do comunicado, cada vez mais cauteloso. Outro sinal está na ênfase sobre manter a política monetária altamente acomodatícia por tempo considerável depois que o programa de compras termine e a recuperação da economia se fortaleça", diz.
O mercado de treasuries nutre a expectativa de que no tradicional "Economic Policy Symposium", que o FED de Kansas City promove a partir de hoje em Jackson Hole (Wyoming) possa se chegar a uma maioria pró-aperto.
Ao contrário dos de fora, os players locais não precisam que haja coerência entre a realidade numérica, palpável, e as operações destinadas a ganhar dinheiro em moeda nacional (eles não põem a mão em dólares físicos; a moeda americana é apenas o avatar dos games). Exemplo?
Na semana passada, o dólar subiu 5,36%. Essa alta foi justificada pelo movimento de entrada e saída de moeda americana do país? Noutras palavras, houve demanda efetiva por dólares para autenticar a valorização? Os números divulgados ontem pelo BC sobre o fluxo cambial entre os dias 12 e 16 deste mês mostram que não.
A saída líquida de capitais pela conta financeira foi uma migalha de US$ 323 milhões, coberta com folga pela entrada líquida pela conta comercial, de US$ 1,135 bilhão. Houve uma sobra efetiva de US$ 812 milhões. Este montante foi acrescido às posições compradas à vista carregadas pelos bancos, de US$ 585 milhões na semana anterior, proporcionando um excedente de moeda americana na praça de quase US$ 1,4 bilhão. Se não falta dólar, por que a cotação sobe?
As responsáveis são as tais posições em dólar futuro "unidirecionais" denunciadas em nota oficial do BC. São os tais "comprados" em cupom cambial e dólar futuro, os fundos de investimentos nacionais e os hedge funds estrangeiros.
Nesse mesmo período de 12 a 16 em que se constatou superávit cambial à vista de US$ 812 milhões, as posições compradas em derivativos cambiais da BM&F cresceram de US$ 24,48 bilhões para US$ 29,61 bilhões. Estava entrando dólar liquidamente mas eles aumentaram suas apostas contra o real em US$ 5,13 bilhões.
Deve-se compreender que os "comprados" não são psicopatas, pervertidos que tramam a derrubada do governo. Fazem apenas o jogo do capitalismo financeiro de lucrar o máximo possível visando o interesse próprio. Não há nenhuma inspiração demoníaca nisso, é da natureza deles proceder dessa maneira. A licença moral para a ação egoísta foi dada pelo liberalismo econômico fundado por Adam Smith. Compete ao governo evitar que tenham êxito.
É da natureza dos governos estabelecer regulamentações destinadas a disciplinar o instinto animal dos mercados. O governo americano se eximiu desse dever nos longos meses anteriores ao colapso de Wall Street de 2008. Deu no que deu. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, já identificou o problema: corretamente diz, como provam os dados do BC, que não está faltando dólar. E corretamente aponta os culpados, entrincheirados no mercado futuro. Falta agir.
Quem tem de agir é a Fazenda. O BC já fez de tudo ao seu alcance para aplacar a alta, com escassos resultados. Já ofereceu hedge farto (ontem, em meio ao frenesi, vendeu swaps no montante nada descartável de US$ 2,77 bilhões) e abundante liquidez. Retirou os propulsores naturais à escalada.
O que o BC não pode é jogar a toalha, satisfazendo a agenda dos especuladores. Não pode vender dólares das reservas sem compromisso de recompra e não pode fazer um choque de juros. Se um player fica "comprado" em dólar futuro automaticamente passa a apostar a favor da alta da Selic porque uma coisa leva à outra.
O câmbio oscilando apenas para cima produz inflação a ser combatida por juro maior. E, do ponto de vista do BC, o juro precisa subir mais para atrair investidores de fora para derrubar o câmbio. Os especuladores ganham nas duas pontas. A curva futura de juros, projetada pelos contratos futuros negociados na BM&F, já embutem a expectativa de um choque de juros. Ela prevê alta da Selic dos atuais 8,5% para 11%. A taxa para a virada do ano avançou de 9,15% para 9,20%. O contrato com vencimento em janeiro de 2015 saltou a 10,46%, vindo de 10,26% no fechamento anterior.