May 28, 2014

Aumento na demanda por cacau deve incentivar produção na América Latina

Fonte: Folha de S. Paulo - 27/5/2014 - 17h47

DA AFP

Berço do cacau, a América Latina está muito longe da África Ocidental no volume de produção.

No entanto, o aumento da demanda pela fruta, sobretudo da asiática, pode ser um novo eldorado para a região, que produz as variedades de melhor qualidade.

"Temos bons sinais de crescimento na Ásia, onde o mercado de cacau deve se expandir entre 5% e 9% em um prazo de quatro a cinco anos", disse Jürgen Steinemann, diretor-geral da Barry Callebaut, uma das maiores processadoras de cacau do mundo.

A América Latina será responsável por 16% da produção mundial entre 2013 e 2014, o que equivale a 666 mil toneladas entre as 4,1 milhões produzidas no mundo.

ESCASSEZ

O número indica uma pequena queda em relação à safra anterior, segundo a ICCO (Organização Internacional do Cacau), que tem sede em Londres.

A organização aponta que a última safra mundial foi caracterizada por um deficit de cerca de 175 mil toneladas de cacau, motivado em parte por uma seca na África.

Como consequência da escassez, os preços se multiplicaram: subiram 25% em 2013 e sofreram uma nova alta no início de 2014. No último final de semana, a tonelada do produto era negociada a cerca de 1.900 libras (R$ 7.144) em Londres e a mais de US$ 3.000 (R$ 6.720) em Nova York.

PERSPECTIVAS

Thomas Plugh, especialista em matérias primas agrícolas da Capital Economics, consultoria britânica em investimentos, prevê um "crescimento razoavelmente alto da oferta latino-americana durante os próximos anos".

"Os maiores produtores vão seguir sendo da África Ocidental, mas as previsões para a América Latina são boas", disse à agência de notícias AFP.

"A demanda de cacau dos países emergentes aumenta sensivelmente, em particular na China", que será somada a um "firme retorno" dos consumidores tradicionais (Europa, seguida pela América do Norte), diz Florence Pradier, secretária-geral da Associação do Chocolate Alliance 7, com sede em Paris.

A demanda asiática também aumentou, em particular por causa da expansão do mercado indiano, que registra o maior crescimento mundial, entre 20% e 25% ao ano.

Os dados são do último informe Cyclope sobre matérias primas, coordenado pela Universidade Paris-Dauphine.

A produção mundial de cacau está dominada pela Costa do Marfim (1,5 milhão de toneladas previstas para a safra de 2013/2014) e Gana (870 mil toneladas), mas a América Latina pode sair ganhando se a demanda por cacau de alta qualidade aumentar.

MERCADO

Segundo Moisés Gómez, da ICCO, o aumento na demanda e na produção desse tipo de cacau poderia mudar a configuração do mercado.

"A maior parte da demanda mundial é por cacau comum que vem, principalmente, da África Ocidental. O cacau fino, que representa 5% da demanda, é proveniente da América Latina", explica.

A Europa é a maior compradora de cacaus finos. Já os norte-americanos estão habituados a chocolates com alto teor de leite e açúcar e, por isso, não há uma demanda tão alta por cacau de excelente qualidade.

"No entanto, quando há a necessidade de um cacau escuro e com boas características gustativas, busca-se o cacau latino-americano ou de Madagascar", diz Gómez.

Segundo ele, são as condições climáticas e o tipo de solo que mais contribuem com o sabor do cacau.

As variedades mais finas do fruto também foram plantadas na África mas, segundo Gómez, "não se espera que elas tenham a qualidade das americanas".

AMÉRICA LATINA

Todas as variedades do cacau se desenvolvem bem na América Latina e vários países do continente são produtores da fruta.

No topo da lista estão o Equador e o Brasil, com produção de cerca de 200 toneladas anuais cada um.

Também cultivam a fruta o Peru, a Venezuela, a Colômbia, a República Dominicana e o México.

Com 63 mil toneladas produzidas em 2013, o Peru ilustra simultaneamente a aposta pelo cacau de alta qualidade e a dificuldade em satisfazer o apetite dos compradores.

"Nossa produção não nos permite oferecer grandes volumes", diz Carmen Rosa Chávez, do Ministério de Agricultura do país.

Por isso, segundo ela, o setor aposta em uma oferta diferenciada ao investir, por exemplo, na produção biológica.

"O problema é que não temos as quantidades suficientes para satisfazer a demanda de grandes fabricantes de chocolates da Europa", diz Francisco Riva, diretor da Associação Peruana de Produtores de cacau.

No entanto, antes as previsões de aumento da demanda, é necessário agir para "evitar a escassez nas próximas décadas", particularmente "com medidas de estímulo e apoio a produção e a melhora dos rendimentos", diz Pradier.

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