Fonte: Brasil Econômico / 5/8/2013
Nos oito anos em que ocupou a vice-presidência da República, boa parte deles lutando contra a doença que acabaria por vencê-lo, o empresário e político mineiro José Alencar também se notabilizou por ser um crítico aguerrido da alta dos juros básicos.
Voz dissonante solitária na cúpula do governo, não deixava escapar uma oportunidade de atacar as decisões do Comitê de Política Monetária do Banco Central que, em sua avaliação, careciam de lógica e serviam apenas para transferir renda do setor produtivo para o sistema financeiro e pouco, ou nenhum, efeito tinham na contenção da inflação.
Apesar do seu alto cargo e da condição de líder de um dos principais partidos da base aliada que dava suporte político ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seus argumentos nunca foram formalmente contestados pelos dirigentes do Banco Central, cujo comportamento naqueles tempos e hoje em nada difere de seus antecessores do período da ditadura militar.
Não se interessam pelo que pensam representantes da sociedade brasileira, incluindo alguns economistas conservadores, que criticam a vinculação da alta de preços ao aquecimento da demanda.
Tal postura lembra a do "salário é inflacionário", muito alardeada pelos formuladores da política econômica do regime militar. Numa equação bem simples, ninguém podia ter aumento e devia se contentar com um salário arrochado para evitar explosão de preços.
Só que mesmo com o arrocho salarial, os preços continuaram subindo, levando inclusive a uma criminosa manipulação de índices oficiais no começo dos anos 70 para mostrar um falso controle inflacionário. O episódio, mais um entre vários relegados ao esquecimento por um esquema de proteção aos envolvidos, nunca foi exposto à população brasileira.
Há uma semelhança entre esse fato e a maneira como a alta dos juros é imposta aos brasileiros, num momento em que é contestada mais fortemente.
Texto de Fernanda Nunes publicado na edição de sexta-feira deste jornal mostra que as últimas altas da Selic não foram eficazes no combate à elevação dos preços, que estariam sendo mais influenciados pela alta do dólar. Ou seja, eleva-se a Selic para frear o consumo e combater a inflação, cuja causa não está na demanda, mas sim no câmbio.
Como alerta Laura Barbosa de Carvalho, professora da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, entrevistada na matéria, a alta de preços no atacado tem relação com a inflação de custos, portanto, imune às altas da Selic.
Depois de três elevações seguidas de 7,25% para 7,50%, 8,0% e 8,50%, nas reuniões de abril, maio e julho, o Copom volta a se reunir não final desse mês. Só falta seus membros ignorarem a evidência dos fatos econômicos e insistirem na escalada altista. Se isso ocorrer, vai se configurar mais uma grave e lamentável provocação ao setor produtivo.
Gabriel de Sales é editor do Brasil Econômico