January 07, 2013

A bem-vinda importação de talentos

Marcelo Mariaca - Presidente do conselho de sócios da Mariaca e professor da Brazilian Business School

O Brasil pretende criar uma nova política nacional de imigração para facilitar a entrada no país de profissionais estrangeiros altamente qualificados. Trata-se de boa notícia. A legislação sobre a matéria, o Estatuto do Estrangeiro, de 1980, ainda guarda resquícios xenófobos do antigo regime militar e não está adequada aos novos tempos de globalização da economia.

O Estatuto do Estrangeiro, apesar das revisões ao longo do tempo, manteve uma série de dificuldades que atravanca o processo de concessão de vistos para profissionais que vêm de outros países.

Empresas estrangeiras que precisam trazer profissionais qualificados para suas filiais esbarram em normas muito rigorosas e, por vezes, subjetivas. Paradoxalmente, a legislação que dificulta a imigração legal de talentos não impediu a entrada de milhares de imigrantes legais, de baixa ou nenhuma qualificação, de diferentes origens - no momento, a maior leva é de haitianos, que chegam ao Norte do país.

Parece que, ao rever a política nacional de migração, o governo pretende também limitar a entrada desse tipo de imigrantes, sem, contudo, abrir mão da política humanitária de abrigar migrantes que enfrentam riscos de sobrevivência em alguns países, como o Haiti, onde lidera uma força de paz da Organização das Nações Unidas.

Uma das razões da pujança dos Estados Unidos é que o país sempre teve como política a importação de talentos, em praticamente todas as áreas. Cientistas e pesquisadores estrangeiros ajudaram as universidades norte-americanas a acumularem prêmios Nobel em suas prateleiras.

O domínio de Hollywood no cinema mundial não prescindiu da importação de milhares de diretores, atores, roteiristas e técnicos qualificados de vários países.

Ainda hoje, o cinema norte-americano garimpa talentos ao redor do mundo para manter a força de sua indústria de entretenimento. E isso ocorre em vários segmentos da economia norte-americana.

Canadá e Austrália são outros países que servem de exemplo de como usar a política de migração para drenar cérebros e talentos.

As universidades norte-americanas são outro exemplo. Elas não só estimulam a entrada de milhares de estudantes estrangeiros por ano e a contratação de professores de outros países, como estão empenhadas, recentemente, em criar campi em outras nações.

Exemplo de que a meritocracia fala mais alto que a xenofobia, quase 20% das 61 universidades filiadas à Associação de Universidades Americanas contam com reitores estrangeiros, segundo a própria entidade.

Para muitos brasileiros, é no mínimo surpreendente que o próprio presidente Barack Obama tenha nomeado o argentino Eduardo Ochoa como seu assessor especial para o ensino superior, num país que abriga muitas das melhores universidades do mundo e possui um exército de professores, pesquisadores e especialistas de alto desempenho.

Por tudo isso, é bem-vinda uma legislação que facilite a entrada de estrangeiros de alta qualificação não só para as empresas, mas também para as universidades brasileiras.

Marcelo Mariaca é presidente do Conselho de Sócios da Mariaca e professor da Brazilian Business School

Fonte: Brasil Econômico / 7/1/2013

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