October 28, 2026

Vozes ACS | Longevitalidade: envelhecer com qualidade de vida começa pela empatia

O envelhecimento da população brasileira traz desafios que vão além da saúde e exigem uma transformação na forma como a sociedade se organiza. A promoção da autonomia, da qualidade de vida e da participação ativa das pessoas idosas está no centro do conceito de Longevitalidade, tema do novo artigo da série Vozes ACS, da Associação Comercial de Santos.

Assinado por José Luiz Camargo Barbosa Filho, médico e coordenador da Câmara Setorial de Saúde da ACS, o texto apresenta reflexões sobre o futuro do envelhecimento no Brasil, especialmente em Santos, município que já registrava, em 2022, 25,3% de sua população com 60 anos ou mais.

O artigo também reúne os principais aprendizados do Fórum Santos de Longevitalidade, realizado em 13 de outubro pela ACS, que promoveu o diálogo entre especialistas, representantes do poder público, universidades e iniciativa privada sobre saúde preventiva, acessibilidade, inovação e integração entre gerações.

Para o autor, preparar a sociedade para o envelhecimento é uma responsabilidade coletiva, que deve começar pela empatia e pelo reconhecimento de que cidades mais acolhedoras para as pessoas idosas são também melhores para toda a população.

Confira o artigo completo:


Longevitalidade: envelhecer com qualidade de vida começa pela empatia

Por José Luiz Camargo Barbosa Filho, médico e coordenador da Câmara Setorial de Saúde da ACS

A imagem da vovó de óculos, tricotando sentada no sofá, já não define mais a terceira idade. Graças aos avanços da Medicina, as pessoas estão vivendo mais, e o que se espera é que cheguem à terceira ou até à quarta idade com autonomia, qualidade de vida e integradas à sociedade.

Essa tríade ajuda a definir o conceito de Longevidade Participativa, ou Longevitalidade. Falar sobre isso no Brasil e em Santos faz todo sentido: em 2050, quase 30% da população brasileira terá 60 anos ou mais. Em 2022, Santos já possuía 25,3% de seus moradores nessa faixa etária.

Em termos práticos, isso significa que a sociedade terá de se preparar para acolher essa população, adaptando-se às suas necessidades e particularidades. E essa é uma lição de casa que precisa ser feita. Não será uma escolha, porque o envelhecimento populacional terá repercussões em áreas como Previdência Social, mobilidade, infraestrutura e, especialmente, saúde.

Para colocar essa questão em debate, a Câmara Setorial de Saúde da Associação Comercial de Santos (ACS) promoveu, no último dia 13 de outubro, o Fórum Santos de Longevitalidade, que reuniu representantes do poder público, da iniciativa privada, de universidades e especialistas em saúde digital, gerontologia, arquitetura e urbanismo.

Chao Lung Wen, livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e referência em Saúde Digital e Telemedicina, apresentou dados que mostram que as políticas públicas voltadas ao envelhecimento da população precisam ser construídas a partir de agora.

Para ele, o envelhecimento saudável não deve ser visto como custo, mas como estratégia fiscal e social. As pessoas estão vivendo mais, o que transforma as necessidades de saúde e exige uma mudança no foco do sistema: do tratamento de doenças para a promoção da saúde, a prevenção de agravos e o cuidado integrado e centrado na pessoa.

Uma estimativa apresentada pelo Dr. Chao aponta que, mantido o ritmo histórico de crescimento das despesas em saúde, o Brasil poderá se aproximar de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) destinados a esses gastos em 2035.

Diante dessas evidências, é preciso mudar conceitos e transformar o sistema de saúde, algo que, de certa forma, já está acontecendo. No passado, o usuário buscava o serviço de saúde com foco no episódio e na resolução pontual de um problema. Hoje, ganha espaço uma visão voltada ao cuidado contínuo, à prevenção e à qualidade de vida, com a participação integrada de diferentes profissionais.

Dr. Chao também defendeu iniciativas como estações de telessaúde em espaços comunitários, telemonitoramento domiciliar, acompanhamento preventivo e integração entre escolas, condomínios e serviços de saúde.

Colocar em prática a longevitalidade, porém, vai muito além da área da saúde. As cidades precisarão se adaptar cada vez mais a uma população longeva, promovendo acessibilidade física, cultural e social.

Durante o Fórum Santos de Longevitalidade, os especialistas foram unânimes ao afirmar que um território capaz de acolher bem a pessoa idosa também se torna melhor para todos os cidadãos. Em outras palavras, preparar os espaços públicos para essa população beneficia crianças, jovens, mães e pais com bebês, pessoas com deficiência e tantos outros grupos.

A área da Educação também precisa olhar para esse conceito, uma vez que os jovens devem aprender desde cedo a importância do autocuidado e da convivência respeitosa e harmoniosa com as pessoas mais velhas, dentro e fora de suas famílias. Em Santos, o programa Jovem Doutor vem colocando esse princípio em prática de forma exitosa, servindo de exemplo para outros municípios brasileiros.

Entre dados científicos e experiências práticas, um dos momentos mais marcantes do Fórum foi a apresentação e o teste voluntário de um simulador que reproduz algumas das condições e limitações que podem fazer parte da vida aos 85 anos, como dificuldades de visão e locomoção, permitindo uma percepção mais concreta dos desafios do envelhecimento.

Quem participou da experiência destacou, em depoimentos sensíveis e emocionados, como pode ser difícil estar nesse lugar e como tarefas consideradas simples pelos mais jovens, como caminhar e enxergar com clareza, podem se tornar desafiadoras com o avanço da idade.

Envelhecer com qualidade de vida começa pela empatia. Para construirmos uma sociedade produtiva, saudável e feliz, cada fase da vida precisa ser respeitada e valorizada, com integração entre as diferentes gerações.

É nisso que acreditamos e é isso que estamos buscando construir.

 

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