A Associação Comercial de Santos (ACS) apresenta mais um artigo da série Vozes ACS, iniciativa que reúne reflexões e análises de lideranças da entidade sobre temas estratégicos para o ambiente empresarial, a economia e o desenvolvimento da sociedade.
Nesta edição, o gerente-executivo da ACS, Eduardo Lopes, assina o artigo “Planejamento de longo prazo: uma cultura necessária”, no qual aborda a importância da continuidade de projetos estruturantes e da construção de políticas de Estado que ultrapassem os ciclos eleitorais.
A reflexão surgiu a partir de discussões realizadas durante as Sabatinas ACS 2026, que reuniram candidatos a diferentes cargos para debater propostas e perspectivas para o futuro do País.
No texto, Eduardo destaca como a ausência de planejamento de longo prazo compromete o desenvolvimento nacional, especialmente em áreas como infraestrutura, logística e transportes. Entre os exemplos apresentados estão o histórico da malha ferroviária brasileira e o projeto do túnel Santos-Guarujá, que atravessou décadas de discussões até avançar em sua concretização.
O autor também ressalta a necessidade de uma mudança de mentalidade, com maior integração entre os setores público e privado, estabilidade econômica e continuidade de investimentos estratégicos.
Para Eduardo, o desafio brasileiro não está na falta de capacidade técnica, mas na construção de uma cultura que permita planejar e executar projetos para além dos mandatos políticos.
A publicação integra a série Vozes ACS, que busca ampliar o diálogo sobre questões relevantes para o desenvolvimento de Santos, da região e do Brasil, valorizando o conhecimento e a experiência das lideranças da entidade.
Confira o artigo
Planejamento de longo prazo: uma cultura necessária
Por Eduardo Lopes, gerente-executivo da Associação Comercial de Santos (ACS)
Às vésperas de eleições majoritárias, o debate público é tomado por discussões acaloradas sobre alianças partidárias, virtudes e defeitos de candidatos, escândalos de corrupção e outras polêmicas que dominam as rodas de conversa. Na própria propaganda eleitoral gratuita, o que se vê são propostas superficiais misturadas a ataques recíprocos, cujo único objetivo é capturar a atenção imediata do eleitor.
O que quase não se discute, infelizmente, é o planejamento de longo prazo para o Brasil, seus estados e municípios. Nas Sabatinas ACS 2026, realizadas na sede da Associação Comercial de Santos, recebemos candidatos a diferentes cargos que trouxeram esse tema à tona — uma provocação necessária que compartilho aqui para nossa reflexão.
No Brasil, o pensamento estratégico costuma ficar confinado ao curto prazo: um horizonte de quatro a oito anos, delimitado pelo tempo de um mandato no Executivo e pela possibilidade de reeleição. Na prática, isso significa que o País é guiado por políticas de governo, e não por políticas de Estado. Projetos essenciais mudam ou são abandonados a cada troca de liderança, sacrificando a continuidade do desenvolvimento.
Essa realidade contrasta com o modelo de outras culturas. A China, por exemplo, trabalha com metas estruturadas para as próximas décadas. Essa visão de longo prazo se concretiza em investimentos robustos em economia, infraestrutura, tecnologia e sustentabilidade, gerando um ambiente de previsibilidade e segurança jurídica que atrai o capital internacional.
Planejar o futuro, contudo, não impede a agilidade no presente. O país asiático já provou ter alta capacidade de resposta a crises imediatas. O exemplo mais emblemático ocorreu em 2020, no auge da pandemia de Covid-19: em apenas dez dias, a cidade de Wuhan construiu o Hospital Huoshenshan. A obra mobilizou milhares de operários em turnos ininterruptos e utilizou estruturas pré-fabricadas, unindo técnica e velocidade.
De volta ao cenário nacional, o Brasil padece com a falta de planejamento desde o início de sua colonização. Naquele período, o foco central era a exploração imediata das riquezas naturais para a geração rápida de lucro. Do pau-brasil aos ciclos do açúcar e do ouro, a lógica colonial sempre priorizou as oportunidades de curto prazo.
A transição do Império para a República não trouxe grandes evoluções na visão estratégica do País. Embora existam competência técnica e capacidade de organização, raramente estruturamos políticas de Estado projetadas para as próximas décadas — e hoje sofremos as consequências dessa lacuna.
O modal ferroviário é um exemplo emblemático dessa ausência de visão de longo prazo. Até os anos 1960, o Brasil contava com aproximadamente 37 mil quilômetros de ferrovias para cargas e passageiros. No entanto, ao longo do século XX — especialmente com o forte incentivo ao transporte rodoviário a partir da década de 1950 —, o país assistiu ao progressivo sucateamento de sua malha sobre trilhos.
Hoje, corremos contra o tempo para construir novas ferrovias, diversificar a matriz de transportes e avançar na multimodalidade, aliviando o gargalo das rodovias. Essa mudança brusca de diretriz, ocorrida em pouco mais de 50 anos, custa caro ao desenvolvimento nacional.
O Brasil dispõe de institutos de pesquisa de ponta e de quadros técnicos altamente qualificados. O entrave real não é a capacidade executiva, mas a falta de uma mudança de mentalidade que garanta a continuidade dos projetos para além de mandatos políticos.
O túnel imerso Santos-Guarujá caminha para se tornar realidade, com previsão de início das obras para 2027. No entanto, foi necessário um século de espera desde os primeiros registros do projeto pela imprensa local até o seu avanço definitivo. Essa proposta atravessou gerações travada em debates, enquanto a logística regional e o complexo portuário operaram por décadas reféns de soluções imediatistas e paliativas.
O Brasil necessita de um ciclo duradouro de desenvolvimento, sustentado pela estabilidade econômica, por um plano nacional integrado e por uma agenda permanente de cooperação entre os setores público e privado. Com liderança firme e visão de longo prazo, consolidamos o caminho para transformar em infraestrutura real o que antes era apenas o sonho dos nossos antepassados.