Tragédia grega em quatro atos

Paulo Rabello de Castro - Chairman da SR Rating e presidente do Conselho de Planejamento Estratégico da Fecomércio

O primeiro ato de qualquer tragédia financeira sempre começa muito antes do momento de o protagonista assumir sua condição de desespero. Aliás, é da euforia que brotam as sementes de uma tragédia.

E foi de pura euforia que viveu o mundo dito desenvolvido nas duas décadas que precederam ao brutal choque financeiro de 2008. Muitos especialistas falam agora em pós-crise.

Não há pós-crise. Não houve superação dos fatores de alimentação da instabilidade financeira dos mercados. Passados dois anos do espocar da crise, os governos dos EUA e da Europa estão afundados em déficits e dívidas.

O remédio aplicado para evitar a temida deflação de preços - uma avalanche de emissão de dinheiro sem lastro - converteu a temida depressão em ameaçadora inflação de commodities. O mundo evitou o desemprego em massa e nova Grande Depressão.

Mas, passou do primeiro ato, de euforia pré-crise, para uma negação da mesma: "...a crise acabou; viva a recuperação!". Estamos apenas findando este segundo ato, em que mercados altamente especulativos já duvidam das previsões de alta continuada dos preços de commodities.

Surgem, agora, temores decorrentes de um ajuste de contas, no plano fiscal, quando os financiadores institucionais que carregam as dívidas públicas a juros muito baixos começam a perceber a deterioração do valor real dos seus papéis e a corrosão da qualidade de crédito dos devedores chamados "soberanos" (os países emissores de dívidas públicas).

O terceiro ato será o do desespero, que começa pelo país da tragédia, como gênero de teatro, a velha Grécia. Nos últimos dias, a conta bateu à porta do setor estatal grego, evidenciando suas profundas falhas de eficiência, que aumentam o déficit do governo altamente endividado.

O socorro oferecido pela Comunidade Europeia no ano passado não equacionou a rolagem de dívidas, impagáveis sem uma reestruturação corajosa. Mas, quem lançará em seus livros este prejuízo? Esta é a questão que o sistema bancário europeu carrega, pintando de nuvens pesadas o palco da tragédia financeira na Europa.

Não é preciso ser um gênio das finanças para deduzir o resto da cena: bancos batendo às portas das autoridades e estas ficando entre a cruz e a caldeirinha: emitir mais para cobrir o rombo e destruir o resto de credibilidade no euro (não é por isso que o ouro não pára de subir?) ou, então, partir para o ajuste sempre adiado, o terrível terceiro ato, em que os personagens da tragédia se engalfinham e se matam.

Seria inevitável tal desfecho? Políticos odeiam tal cenário, por motivos óbvios. Apenas estadistas são capazes de liderar uma população angustiada e revoltada a pagar o preço de um ajuste econômico.

Daí a tentativa de pedalar a conta para frente, como fez o mestre de todas as pedaladas, o chairman do Federal Reserve, Alan Greenspan, protagonista oculto de toda essa tragédia. O desfecho do ajuste é inevitável e se aproxima a cada dia.

Trará também para nós, brasileiros, uma consciência maior de nossa própria euforia retardatária e perigosa, embora gostosa.

Ah! O quarto ato: é a catarse da recuperação econômica efetiva, que demora, mas chega.

----------------------------------------------------------

Paulo Rabello de Castro é chairman da SR Rating e presidente do Conselho de Planejamento Estratégico da Fecomércio

Fonte: Brasil Econômico - 13/5/2011

                                       





Rua XV de Novembro, 137 - Centro Histórico, Santos / SP - CEP: 11010-151
E-mail: acs@acs.org.br - Telefone: (13) 3212-8200 - Fax: (13) 3212-8201

desenvolvido por marcasite