April 05, 2013

Japão parte para a guerra (cambial)

Paulo Rabello de Castro - Presidente do conselho de economia da Fecomercio e do Lide Economia

O novo governador do Banco do Japão, Haru Kuroda, acaba de anunciar uma "nova fase de afrouxamento monetário", de fato um enorme choque monetário que se estenderá por dois anos até março de 2015.

Kuroda pretende DOBRAR a base monetária em ienes, dos atuais ¥ 135 trilhões (US$1,43 tri) para ¥ 270 trilhões. A base monetária de um país é a soma do dinheiro físico em circulação mais as reservas dos bancos.

Em cima dela, o sistema bancário cria os meios de pagamentos, ou seja, os depósitos. Quanto maior essa base, em princípio, mais amplo será o estoque monetário na economia. E mais líquidos estarão os bancos para emprestar e, portanto, criar novos depósitos.

Com mais liquidez o Japão espera se livrar da crônica deflação de preços que segura a produção e valoriza o iene, sua moeda, roubando poder de competição dos produtos japoneses no mundo.

A meta do novo primeiro ministro Abe, chamada de "três setas" - representando maior emissão de moeda, mais estimulo fiscal e reformas estruturais competitivas - é conseguir provocar uma inflação (é isso mesmo, criar mais inflação) de até 2% ao ano.

Hoje, o Japão convive com pequena deflação, os preços em média caem. Isso é ruim na medida em que todas as dívidas em ienes vão pesando mais para os devedores num ambiente de deflação de preços.

Abe quer uma pequena inflação, que estimulará as empresas a investirem e os consumidores a não mais esperar preços cadentes para ir às compras. Com isso, o Japão industrial quer se livrar da decadência que está sendo provocada pelo iene supervalorizado.

Os mercados não esperaram para começar a corrigir o valor da moeda. O iene caiu de 92,91 por dólar para 95,20, ou seja, mais ienes são necessários para adquirir um dólar. Isso facilita a venda dos produtos do Japão. É a desvalorização competitiva, tão temida por nosso ministro Mantega.

Bom para eles, se a política bernankiana que adotaram der certo, porém ruim para os Brics, em particular para o Brasil. A moeda brasileira ficou um pouco mais cara a partir do anúncio da política de afrouxamento japonesa.

A bolsa japonesa, medida pelo Nikkei 225, subiu expressivamente e deve permanecer nessa tendência, embalada, inclusive, pelas ameaças de conflito na península coreana, já que haverá uma escalada de gastos preventivos para aumentar o grau de proteção dos aliados dos EUA contra as ameaças da Coreia do Norte.

O Japão acentua sua aliança com os Estados Unidos e sincroniza seu afrouxamento monetário com a possível diminuição do afrouxamento nos EUA, no segundo semestre.

Com isso, os dois países, que já foram locomotivas do mundo nos anos Setenta e Oitenta, retomam o embalo da economia mundial contra a ameaça maior de uma acentuada recessão europeia. ,

Nesse jogo mundial, o Brasil é um jogador fraco e distanciado das grandes decisões, por ser um país de políticas atrasadas, como o manicômio tributário que o aprisiona, e de infraestrutura ultrapassada, com suas filas monstruosas de caminhões para embarcar commodities agrícolas... Nosso poder de competição, já apequenado, se esvai no meio da nova guerra cambial do mundo.

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Paulo Rabello de Castro é presidente do conselho de economia da Fecomercio e do Lide Economia

Fonte: Brasil Econômico - 5/4/2013

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