24/02/2011

WikiLeaks revela extravagâncias da família Kadafi

Telegramas americanos comentam gastos e disputas dos filhos do líder líbio, além das excentricidades do ditador

WASHINGTON

Após o ano-novo de 2009, a mídia ocidental noticiou que Saif al-Islam Kadafi, um dos filhos do líder líbio, Muamar Kadafi, havia pago US$ 1 milhão a Mariah Carey para ela cantar apenas quatro músicas numa festa na Ilha de St. Barts no Caribe.

No jornal que controlava, Saif negou com indignação a notícia - o grande gastador, disse ele, era seu irmão, Muatassim, consultor de Segurança Nacional da Líbia, segundo um telegrama diplomático americano enviado de Trípoli. Segundo o telegrama, foi também Muatassim que pediu em 2008 US$ 1,2 bilhão do presidente da corporação nacional de petróleo da Líbia para criar sua própria milícia. Isso lhe permitiria equiparar-se a outro irmão, Khamis, comandante de um grupo de forças especiais que "efetivamente serve como unidade de proteção do regime". No momento em que o clã Kadafi conduz uma luta sangrenta para permanecer no poder na Líbia, os telegramas obtidos pelo WikiLeaks oferecem um relato vívido dos gastos perdulários, do nepotismo galopante e das rivalidades ásperas.

Os vislumbres das palhaçadas do clã nos últimos anos que chegaram aos líbios, apesar do rígido controle da mídia por Kadafi, contribuíram para a ira pública que está extravasando agora. E as tensões entre filhos emergiram como um fator no caos desse país rico em petróleo.

Embora os telegramas descrevam os filhos de Kadafi disputando posições diante do envelhecimento de seu pai, eles foram muito bem tratados. "Todos os filhos e favoritos de Kadafi supostamente recebem rendimentos contínuos da Companhia Nacional de Petróleo e de subsidiárias de serviços petrolíferos", diz um telegrama de 2006.

Um ano atrás, um despacho reportou que a proliferação de escândalos provocara uma vertiginosa queda do clã e "fornecera a observadores locais sujeira suficiente para uma novela".

Muatassim havia repetido a farra de ano-novo de St. Barts, desta vez contratando os cantores Usher e Beyoncé. Outro irmão, Hannibal, por sua vez, tinha voado para Londres após ser acusado de abusar fisicamente de sua mulher, Aline, e após a intervenção de uma filha de Kadafi, Ayesha, que viajou a Londres apesar de estar "grávida de muitos meses", informou o telegrama. Ayesha, acompanhada da segunda mulher de Kadafi, Safiya, mãe de seis dos oito filhos dele, "aconselhou Aline a dizer à polícia que havia se ferido num "acidente", e não mencionar nada sobre abuso", segundo o despacho.

Em meio às velhacarias de seus irmãos, Saif, o segundo filho mais velho do presidente, foi "oportunamente desengajado de assuntos locais", passando as férias caçando na Nova Zelândia. Sua organização filantrópica, enviou centenas de toneladas de ajuda ao Haiti devastado pelo terremoto, e ele era visto como uma perspectiva razoável para suceder a seu pai.

O mesmo despacho de 2010 disse que contatos de jovens líbios haviam reportado que Saif al-Islam é a "esperança da Líbia de amanhã", com homens na faixa dos 20 anos dizendo que aspiram a ser como Saif e acham que ele é a pessoa certa para governar o país.

Eles o descrevem como educado, culto e alguém que deseja um futuro melhor para a Líbia", ao contrário de seus irmãos, segundo o telegrama. Isso foi antes. Hoje, os manifestantes jovens nas ruas pedem a saída da família inteira, e foi Saif quem declarou na televisão, na segunda-feira, que a Líbia estava à beira de uma guerra civil e "rios de sangue" correriam se as pessoas não cerrassem fileiras com seu pai.

Sobre Kadafi, de 68 anos, os telegramas forneceram um retrato impressionante, descrevendo-o como um hipocondríaco que tem medo de voar sobre a água e jejua com frequência nas segundas e quintas-feiras. Os despachos disseram que ele era tão fanático por corridas de cavalo e pelo flamenco (a dança) que um dia acrescentou "Rei da Cultura" à longa lista de títulos que ele se outorgou.

Os telegramas disseram também que ele andava sempre acompanhado de uma "loira voluptuosa", a figura principal de seu grupo de enfermeiras ucranianas.

Depois que Kadafi abandonou sua tentativa de obter armas de destruição em massa, em 2003, muitas autoridades americanas elogiaram sua cooperação. Em visita à Líbia, em 2009, o senador Joseph Liberman disse a Muatassim que o país era "um aliado importante na guerra ao terrorismo, notando que inimigos comuns às vezes fazem amigos melhores." / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK - NYT

Fonte: O Estado de S. Paulo /NYT - 24/2/2011
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