04/07/2011

Um novo Banco Central?

Sérgio Vale - Economista-chefe da MB Associados

O mais recente relatório de inflação, a peça mais importante utilizada pelo repertório retórico do Banco Central, trouxe um banco mais enxuto nas palavras. Aquela visão meio tortuosa da conjuntura, com várias justificativas para o injustificável, cedeu lugar a um tom mais comedido, ao foco das causas básicas da inflação e uma novidade: estão olhando mais para frente.

Há preocupação mais explícita agora com as expectativas de inflação, com os impactos do salário mínimo em 2012, quando subirá 14%, e do próprio aquecimento do mercado de trabalho em geral e com a continuidade de um cenário fiscal benigno, para usar uma palavra cara ao banco.

Mas a síntese dessa percepção se deu nas próprias projeções para 2012, que mostram um IPCA acima da meta nos cenários estudados, resultado bem diferente do que o banco vinha insistindo em sugerir.

Em outras palavras, nas atuais condições o IPCA chegaria a 4,5% apenas em 2013. Essa nova percepção do banco é uma aproximação com a realidade.

Não é que o banco descobriu que agora a situação está ruim, mas houve uma convergência de análise do banco com o mercado. Vale aqui o velho adágio do antes tarde do que nunca. Entretanto, a vitória de um banco mais realista não está totalmente cantada.

Ainda há resquícios no texto de que o cenário inflacionário está ficando mais favorável, por todas as razões espúrias que já discutimos nesse espaço. Basicamente, ainda se conta com uma melhora no cenário de commodities, que de fato ocorrerá, e que ainda poderá nublar a visão da inflação para os próximos trimestres.

É fato ainda que o problema principal não seja as commodities, mas a demanda doméstica que pressiona itens difíceis de reversão, como os serviços.

Apesar desse toque de realidade do banco, a impressão que fica é que as dificuldades em acertar o passo desde o começo do ano passado podem colocar mais pressão nos juros nos próximos meses.

Ao demorar a elevar a Selic em 2010, o BC deixou a inflação subir além do aceitável e trabalhar para trazê-la para a meta exigirá um esforço que terá que ir além da retórica. Isso joga por terra, por exemplo, o desejo de ter taxa real de juros a 2% em 2014.

Significa também que a Selic deverá subir novamente em 2012. E ainda num cenário básico, a Selic deve chegar ao final do governo Dilma ainda em dois dígitos e precipitado justamente por um final de governo pressionado pelos gastos com os jogos e pelo ano eleitoral difícil que Dilma deverá enfrentar no final de seu mandato.

Por conta das distorções em que se encontra a política fiscal, é mais verdade ainda que a pressão de controlar a economia fique nas mãos do BC. Menos mal que o banco finalmente tenha percebido o sentido dessa necessidade. O que pode desviar esse caminho?

Uma crise internacional mal conduzida, que leve a Grécia a uma solução que gere impasse no sistema bancário europeu pode reviver os dramas do Lehman Brothers de 2008.

E os impactos aqui de uma nova crise podem ser piores do que os sentidos em 2009 basicamente porque já gastamos política econômica além da conta na última crise, principalmente a fiscal.

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Sérgio Vale é economista-chefe da MB Associados

Fonte: Brasil Econômico - 4/7/2011
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