27/05/2011

Um governo tutelado

Roberto Freire - Presidente do PPS

A derrota do governo na questão do novo Código Florestal não foi uma vitória da oposição, mas uma derrota infligida ao governo por sua própria base. Afinal, a Câmara dos Deputados aprovou por 410 votos a favor, 63 contra, 35 do PT que contrariaram a orientação do partido e do governo Dilma Rousseff, e uma abstenção o projeto que altera o Código florestal.

Duas propostas controversas, de autoria de deputados do PMDB, ainda foram aprovadas, a que dá aos estados a prerrogativa de definir áreas de preservação e a que permite a redução da Reserva Legal da Amazônia em 30 pontos percentuais. Não deixando à presidente Dilma Rousseff outra alternativa que o veto.

Não é demais lembrar que quando ocupou o Ministério de Minas e Energia e, depois, a Casa Civil, Dilma sempre esteve em confronto com Marina Silva, então ministra do Meio Ambiente. Como no caso da hidrelétrica de Belo Monte e nas demais obras do PAC que feriam a legislação ambiental. Um dos motivos, como se sabe, da saída de Marina do governo Lula.

Enfrentando uma aguda crise política, fruto de denúncias gravíssimas que atingem seu chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, por tráfico de influência quando era deputado e coordenador de sua campanha presidencial, como revelou recentemente reportagem da Folha de S.Paulo.

Mais preocupado em livrar-se da ameaça de uma CPI do que coordenar as ações do governo, é incapaz de comandar sua própria base, obrigando a presidente a negociar no varejo para preservar seu ministro, e tentar governar.

Esse é o quadro desolador de um governo que não governa, como pode ser facilmente observado pela paralisia das obras do PAC 2, notadamente as que envolvem a Copa e as Olimpíadas, o retorno da inflação e o crescente desajuste fiscal. Um dos resultados desse desgoverno é o ambiente cada vez mais confuso em que atua sua base parlamentar.

Não por outro motivo, o ex-presidente Lula assoma o proscênio buscando o apoio de Sarney para impedir que Palocci não tenha que prestar contas sobre o fantástico desempenho de sua "empresa de consultoria", formada por dois empregados, e sobre a qual ninguém no mercado nunca ouviu falar.

Talvez seja em relação a ela que o ex-presidente se referia quando falava em "espetáculo do crescimento". Sua aparição revela um fato que agora torna-se evidente, a de um governo tutelado e incapaz de enfrentar crises.

Tal fato ocorre paralelamente em um momento crucial para a economia do país. Com a crescente deterioração da situação internacional, com o Japão em recessão, a China diminuindo a velocidade de seu crescimento e a Europa e os Estados Unidos ainda às voltas com a crise financeira deflagrada em 2008.

Qualquer que seja a perspectiva de análise, o que vemos é um governo paralisado, enredado em suas contradições, sem direção e com sua base parlamentar cada vez mais "esfomeada", percebendo a fraqueza do governo e sua incapacidade de sair do impasse.

Um governo fraco é uma ameaça permanente ao próprio processo democrático, sobretudo, quando depende de um condottiere que de fora das instituições estabelece um poder paralelo para tentar salvar a sua criatura que se mostra alienada do seu papel de líder, através de um silêncio que se antes parecia sabedoria, hoje não passa de perplexidade.

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Roberto Freire é presidente do PPS

Fonte: Brasil Econômico - 27/5/2011
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