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23/05/2012

‘Se a gente fizesse aqui o que faz nos EUA, seria acusado de trabalho escravo’

# CEO da Odebrecht diz que regulação trabalhista brasileira é arcaica e afirma que excesso de encargos reduz as margens das empresas que atuam no país

Danielle Brant - iG São Paulo

A legislação trabalhista brasileira precisa mudar e o País ganharia muito se adotasse um pouco da flexibilidade existente nos Estados Unidos. Essa é a opinião do diretor presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, que considera a regulação em vigor no Brasil é “arcaica” e defende um novo tipo de parceria. “Se a gente fizesse no Brasil o que faz nos Estados Unidos, era acusado de trabalho escravo.”

Odebrecht participou de um dos encontros da série “Grandes Empresários: Estilos de Gestão”, realizado na Casa do Saber, em São Paulo, na última segunda-feira. Segundo o executivo, há uma crise de produtividade no País, agravada pela legislação trabalhista e pelos custos “estratosféricos”.

“O problema da indústria é competitividade, é encargo trabalhista, é custo de capital”, critica o empresário, que destaca que metade dos investimentos que a Odebrecht tem hoje está fora do Brasil.

“Você tem margens muito maiores hoje fora do Brasil do que no Brasil. A dificuldade no País não é de demanda. Do ponto de vista macroeconômico, o Brasil está fantástico”, destaca. O empresário diz que o País precisa aproveitar as oportunidades que surgirão com os eventos que receberá nos próximos anos, como a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.

“Lamento apenas se a gente não aproveitar esses dez a vinte anos para cuidar dos problemas estruturais. Estou muito otimista com o Brasil nos próximos dez anos e estou preocupado com o Brasil nos próximos 20”, afirma.

Marcelo é filho de Emilio Odebrecht, atual presidente do conselho de administração da companhia. Ele começou na empresa como estagiário em 1992, e já enfrentou uma grave crise, em 2000, quando a Odebrecht precisou se desmobilizar de vários ativos para sobreviver. No comando da companhia desde 2008, o empresário adotou um estilo de gestão que pode ser considerado, no mínimo, ousado.

“Os líderes (responsáveis pelos vários braços da holding) não vão atrás de mim para tomar a decisão de entrar nisso ou naquilo. É um processo muito descentralizado. O pessoal que trabalha comigo tem que me entender por telepatia. Tenho uma confiança extrema que beira a irresponsabilidade.”

A companhia tem hoje 175 mil funcionários e uma média de contratação de 3 mil pessoas por mês. O CEO tem sob seu comando direto 25 executivos. Cada um deles é responsável por gerar capital para reinvestir em seu negócio. E de tempos em tempos os executivos são remanejados para outras áreas. “Depois de cinco anos no mesmo programa a pessoa não é mais a mesma coisa. É preciso conhecer as forças e as fraquezas do liderado”, afirma Odebrecht.

A expansão da empresa é planejada tendo como base o crescimento orgânico. “Eu não gosto de fusão. Em uma empresa que tem uma cultura forte, como a nossa, de confiança nas pessoas, a aquisição não é estratégia de crescimento. Quando ocorre, é em função de uma oportunidade. E ainda assim, a gente procura fazer em áreas muito específicas, onde não seja muita gente”, diz.

Hoje, a Odebrecht tem braços em áreas como petróleo e gás, defesa e tecnologia, mercado imobiliário, etanol, engenharia industrial. A companhia também tem forte atuação internacional, com presença em países como Angola – onde possui 25 mil funcionários –, Venezuela – onde participou da construção do metrô de Caracas – e Estados Unidos. Nesse último, atuou nas obras dos terminais do aeroporto internacional de Miami.

Gerenciando crises

O empresário, que diz dormir de quatro a cinco horas por noite, conta ainda que não perde o sono com problemas da empresa. “Eu não preciso perder o sono com aquilo que não vou resolver. Quando eu tenho algum problema na organização, eu vou atrás da pessoa certa”, conta. Mas quando envolve funcionários da Odebrecht, a coisa muda de figura.

Em 2005, por exemplo, a empresa precisou lidar com o sequestro e morte de um engenheiro no Iraque. “Ali, foram seis meses infernais para mim. Eu tive vários aprendizados que me marcaram naquele momento. Quando a gente soube que ele estava morto, demoramos dois anos, mas trouxemos o corpo”, diz.

A briga com o governo do Equador também é lembrada pelo executivo. Em 2008, a empresa foi expulsa do país acusada de descumprir contrato para as obras da usina hidrelétrica San Francisco. “Quando eu ia deixar o aís, reparei que tinha um post-it nas telas dos computadores da imigração com os nomes de todos os nossos funcionários. O nosso pessoal estava ameaçado de prisão no Equador. Aí voltei e fiquei lá”, diz. A situação só foi resolvida em 2010, quando a Odebrecht retomou as operações no Equador.

Vida pessoal

Além de dormir pouco, o diretor presidente da Odebrecht não abre mão de suas duas horas de ginástica diárias ou de passar o tempo que tem livre com a família. “É mais importante qualidade do que quantidade. Algumas coisas que eu aprendi na vida foram: tenha só uma agenda, tenha só um e-mail e coloque na mesma agenda os seus compromissos pessoais e seus compromissos de trabalho”, diz. O empresário, que gosta de praticar natação, squash e corrida, explica ainda que evita fazer programas sociais que não envolvam a família.

“Uma coisa que também aprendi muito é o seguinte: durante a semana, sua família aceita bem você estar fora. Um final de semana que você está fora, você está ferrado”, brinca o empresário.

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