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Santos, SP/

14/07/2011

Primarizar exportações é inevitável?

Júlio Gomes de Almeida - Professor da Unicamp

O debate tem crescente interesse e diz respeito ao veloz aumento das exportações de produtos primários que, segundo um levantamento do IEDI, já correspondem a 41% das exportações brasileiras, contra 20% em 2005.

Seria inevitável alguma elevação na importância relativa dos bens primários devido a um efeito puramente de preços, já que as cotações internacionais subiram excepcionalmente devido ao forte crescimento da economia chinesa, aliado a uma maior valorização das commodities como ativos financeiros.

Da parte de bens industriais, o período recente não propiciou preços mais altos em razão de um excesso de capacidade global criado desde a crise de 2008. Por isso, as exportações brasileiras de manufaturados deveriam forçosamente ceder espaço para primários, o que seria revertido em outro momento do ciclo com a mudança em sentido contrário dos preços relativos.

Nesse caso, as exportações industriais passariam a servir de sustentação para as exportações totais do país, compensando em alguma medida a queda das vendas externas de produtos primários.

Para que este pêndulo opere a contento é necessário que o Brasil preserve uma relevante diversificação exportadora e resista à tentação de deixar-se levar para a especialização de sua economia em algumas commodities.

O ponto fundamental é que além do efeito dos favoráveis preços internacionais dos bens básicos, a "primarização" vem sendo impulsionada por um colapso da capacidade brasileira de colocar sua produção industrial em mercados externos e mesmo no mercado interno.

Isto é decorrência de décadas de ausência de políticas industriais e do descaso das políticas em temas como infraestrutura, reforma tributária, custo de capital e encargos sobre a folha de salários.

Corresponde ainda ao fator decisivo que é o câmbio. Para alguns, a valorização da nossa moeda é outra consequência do boom das commodities, o que não é verdadeiro.

Os melhores preços dos bens primários permitem compensar apenas parcialmente o déficit em produtos industriais, em serviços e rendas. Se as commodities não exercessem esse papel, uma crise cambial já teria interrompido o presente ciclo de crescimento.

Mas o resultado não é um largo superávit em transações correntes, o que contribuiria para valorizar o real, mas, sim, um preocupante déficit externo. No caso brasileiro, a fonte da grande valorização de sua moeda não reside nos fluxos de comércio, serviços e rendas.

A taxa de câmbio não é um "preço" de simples determinação por corresponder às variáveis correntes, mas também às expectativas (vale dizer, antecipações sobre o futuro) e aos fluxos de capitais, os quais têm na instabilidade a sua marca registrada.

O real se valoriza tanto e a indústria assiste sua competitividade desabar não porque as commodities têm bons preços, mas porque uma taxa de juros interna fora do comum e um tímido controle dos fluxos de capitais confirmam as apostas de valorização em mercados futuros.

Enquanto o país se negar a ter uma estratégia de desenvolvimento que maximize todo o seu potencial em bens primários, na indústria e em serviços de qualidade, e enquanto não reposicionar a taxa de câmbio, todo o bem que poderia ser originado de uma condição internacional sui generis para os produtos básicos será tido indevidamente como um mal.

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Julio Gomes de Almeida é professor da Unicamp

Fonte: Brasil Econômico - 14/7/2011
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