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Santos, SP/

06/06/2011

O que fazer para desindexar

Sérgio Vale - Economista-chefe da MB Associados

O governo parece imobilizado de diversas formas, reagindo à paralisia soltando medidas à esmo, talvez com intenção de passar mensagem de que é reformista. Dentre as novidades mais recentes está a discussão da desindexação.

Um ponto mais do que válido, urgente. Mas, como sempre, o governo reconhece a existência de um problema, mas não sabe bem o que fazer com ele.

Ideias como trocar o indexador de IGP para IPCA não parecem ser úteis, para dizer o mínimo.

As medidas que acreditamos serem as corretas para começar a se pensar nisso, nem de longe são cogitadas pelo atual governo. Primeiro, a diminuição das metas de inflação.

Uma meta de 4,5% é elevada, sob qualquer parâmetro. Acaba fazendo com que os agentes olhem a inflação passada para recompor suas perdas.

Se o governo propusesse um esquema gradual de queda da meta para números mais razoáveis faria com que os contratos fossem naturalmente revistos para reajustes mais longos.

Se a inflação perseguida é 2% e não 4,5%, há uma tendência gradual, se essa meta for crível, de olhar ganhos de produtividade mais do que apenas recomposição da inflação em reajustes salariais.

Seria passar de uma economia que olha para trás para uma que vê a inflação para frente, porque acredita que ela será baixa.

Segundo, temos que mudar os índices de preço no Brasil. Os IGPs como são calculados são jabuticabas perfeitas, mas da pior qualidade.

Isso porque um indicador que tem 60% de seu índice atrelado aos preços no atacado (IPA) não deveria reajustar aluguéis e outros contratos regulados pelo governo. O problema não é o IPA em si, mas o fato de que ele é sobremaneira afetado por variações na taxa de câmbio e nos preços de commodities que levam a uma volatilidade muito grande nesses índices.

Ano passado os IGPs chegaram a quase 12% e pelo seu amplo uso está afetando a economia num momento em que a inflação teria que baixar mais rapidamente. A solução aqui não seria o fim dos IGPs, mas seu desdobramento. Separar o IPC do IPA e do INCC levaria gradualmente quem usa o IGP a usar pelo menos um índice menos volátil do que o IPA.

Isso faz parte do processo de desindexação, não é um fim em si da desindexação.

Por fim, temos também que melhorar a qualidade dos índices de preço. Ao invés de ter muitos índices, resquícios da inflação, teríamos que ter menos e com maior qualidade.

O que se quer dizer com melhor qualidade? Por exemplo, o IPCA do IBGE, por uma falta crônica de recursos, usa pesquisas de orçamentos familiares (POF) feitas de cinco em cinco anos para fazer as reponderações dos pesos dos componentes do indicador.

Entretanto, mesmo países com inflação baixa, como os EUA, possuem distorções desse tipo que levam a uma superestimação de 1 ponto percentual, algo muito bem detalhado num estudo do economista Robert Gordon (The Boskin Comission Report: a Retrospective one Decade Later).

Isso num país com inflação baixa. No Brasil, provavelmente seria muito mais.

Sem esses passos, falar em desindexação no país não será para esse governo.

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Sérgio Vale é economista-chefe da MB Associados

Fonte: Brasil Econômico - 6/6/2011
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