26/05/2011

O novo momento da inflação

Júlio Gomes de Almeida - Consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi)

A dificuldade no combate da recente aceleração inflacionária no Brasil reside na multiplicidade de fatores causadores do forte e muito generalizado aumento de preços.

Por enquanto, o aumento mensal do custo de vida ainda é alto e, em bases anuais, a inflação ultrapassa o teto de 6,5% da meta.

Mas, alguma coisa já acontece, o que nutre a expectativa de que na margem os índices venham a se comportar em uma base mais próxima ao centro da meta anual que é de 4,5%.

De fato, em alimentação - item destacado no último ciclo de aceleração inflacionária no Brasil e no mundo e que é base do consumo do brasileiro que está ingressando no mercado consumidor -, já há sinais de recuo e é de se esperar uma trajetória de queda, seja porque a escalada das commodities teve um estancamento, seja porque a sazonalidade favorece a moderação de preços.

Também em transporte o quadro melhorou e é muito provável que o barateamento do etanol desinfle esse que foi o maior vilão dos preços nos últimos meses.

Mas, a resistência inflacionária é ainda acentuada porque o Brasil não se libertou de uma indexação muito ampla, daí os altos aumentos das tarifas de energia elétrica e água e esgoto, como ocorreu em maio. Nada é possível fazer prontamente com esses preços indevidamente indexados.

Mas, olhando para o futuro, seria o momento de acelerar a desindexação em serviços públicos e aluguel.

Como se não bastassem as influências negativas da monumental ascensão dos preços internacionais de commodities, da excepcional sazonalidade dos preços domésticos nesse ano e da grande influência das tarifas indexadas, desde o ano passado a atividade na economia está em nível elevado, o que generaliza os aumentos dos preços dos serviços em função, sobretudo, de aumentos dos rendimentos dos profissionais desse setor.

Como se sabe, os rendimentos da base da população ocupada vinham sendo impulsionados pela valorização do salário mínimo, o que ajudou a reconstituir o mercado interno consumidor.

Mas agora praticamente todas as categorias de profissionais em serviços vêem a oportunidade de um aumento de remunerações, o que afeta em cheio itens relevantes do índice de preço ao consumidor, como saúde e despesas pessoais.

A moderação já em curso do crescimento da economia amenizará o impacto desse fator, mas não devemos esquecer que ele é decorrente de um estágio superior alcançado pela economia brasileira.

O desenvolvimento nem de longe é um processo harmônico e frequentemente provoca mudanças de preços e salários como consequência de alterações na distribuição da matéria prima, dos bens de capital e da força de trabalho na economia.

São aumentos hoje na remuneração de prestadores de serviços que amanhã ampliarão a oferta de mão-de-obra e incentivarão a maior qualificação no setor. Mesmo com tantos fatores de resistência é possível esperar queda da inflação mensal.

Isso servirá para aliviar em muito a expectativa hoje negativa que emana de uma inflação muito superior à meta.

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Júlio Gomes de Almeida é consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi)

Fonte: Brasil Econômico - 25/5/2011
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