16/05/2011

O mal ronda o mundo

Sérgio Vale - Economista-chefe da MB Associados

Que o leitor não pense que minha desconfiança em relação à condução da política econômica brasileira tenha se estendido ao mundo. O título deste artigo é emprestado do livro do historiador Tony Judt, recém-falecido e, talvez por conta de saber sobre seu destino, escreveu um quase manifesto contra o excesso do capitalismo nas últimas décadas.

Seu livro é um libelo a favor de uma presença mais atuante do Estado, não no sentido de ser produtor ou qualquer coisa do tipo, mas no sentido de resgatar o Estado de Bem-Estar Social que se criou no pós-guerra.

Ele não dá respostas de como chegar a isso. Afinal, não é uma pergunta trivial de ser respondida, mas o autor talvez se apegue demais a exemplos específicos e mal sucedidos de descaminhos dessas garantias nas últimas décadas.

Por exemplo, muito do descarrilamento econômico da França desde a década de 80 se deu justamente pela tentativa de se criar um excesso do Estado de Bem-Estar Social quando François Mitterrand virou presidente.

Ao mesmo tempo, a Inglaterra seguiu uma trajetória reformista que levou a resultados positivos de crescimento. A diferença de desempenho entre França e Inglaterra foi evidente antes da crise. E a crise aqui apenas mostra que todo excesso é pernicioso.

No caso francês, o excesso de Estado foi mais sutil e levou a um ostracismo econômico evidente que faz com que o país tenha dificuldade de crescer. Ao mesmo tempo, a falta de um Estado regulador no mercado financeiro também permitiu os excessos vistos nos EUA e na Inglaterra.

Talvez o exemplo que Judt pudesse focar, que parece equilibrar a presença do Estado com um capitalismo vigoroso, venha de nosso vizinho Chile. As reformas liberalizantes das últimas décadas permitiram que a economia crescesse de forma acentuada. Ao mesmo tempo, soluções criativas da interferência do Estado na economia foram sendo implementadas.

A mais interessante recentemente talvez seja o fundo fiscal criado para guardar os recursos extras ganhos durante os períodos de bonança dos preços do cobre. O mais atraente no fundo é sua coordenação entre privado e público. Em estudo recente, Jeffrey Frankel (A solution to fiscal procyclicality: the structural budget institutions pioneered by Chile) mostra que a solução adotada deu certo.

No modelo chileno, um painel de especialistas privados e públicos indica as projeções de preço de cobre que permitem o planejamento fiscal dos anos seguintes para o fundo.

Evita, com isso, o otimismo excessivo que se vê nas projeções do governo em qualquer parte do mundo, algo que temos visto com bastante frequência aqui no Brasil.

Frankel mostra que essas projeções foram bastante acuradas e levaram ao bom resultado do fundo. E o fundo foi essencial durante a crise de 2008/2009.

Esse exemplo criativo da presença do Estado na economia nos lembra de que extremos geralmente não dão certo e as parcerias entre setor privado e público sempre têm mais chance de obter bons resultados.

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Sérgio Vale é economista-chefe da MB Associados

Fonte: Brasil Econômico - 16/5/2011
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