23/05/2011

O mal-estar da Zona do Euro

Sérgio Vale - Economista-chefe da MB Associados

Todo o imbróglio em relação à queda do diretor geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, antecipou discussões acerca da fragilidade do sul europeu neste momento. Tudo é motivo de elevada volatilidade e às vezes se esquece de que o próprio diretor estava para sair em julho por conta das eleições presidenciais francesas.

Em tempos normais, sua queda não teria razão de abalar tanto os mercados. Seria apenas melancólico, mas não trágico como tem sido colocado.

A importância atual do FMI para a Europa de fato é fundamental, basicamente pela diferença intelectual que a instituição tomou com a entrada do diretor francês.

Suas inclinações econômicas sempre foram de mais ativismo, diferente de seus antecessores mais liberais. Obviamente, conta para a preocupação também o fato dos países em crise serem europeus e não latino-americanos ou asiáticos, como sempre foram.

Mas a questão de fundo independe da situação de Strauss-Kahn. A Europa passa por um descompasso entre os países do Club Med, como se chamam o conjunto do sul Europeu, e os do norte, Alemanha especialmente.

Essa disparidade é consequência da própria formulação do euro. Ao colocar países tão diversos sobre uma mesma moeda colocou todos talvez numa politica monetária mais expansionista do que poderia, estimulado má alocação de capital ao redor da Europa.

Justamente os países do sul talvez não tivessem condições de manter taxas de juros tão baixas como o Euro permitiu na última década. O resultado, por exemplo, foi o forte crescimento imobiliário na Espanha.

A camisa de força monetária permanece agora para o outro lado. Parte da Europa cresce e leva a pressões inflacionárias, necessitando que o BCE comece a subir sua taxa básica de juros.

Mas isso ocorre justamente no momento em que os países em dificuldade deveriam fazer um ajuste fiscal forte e permitir alguma descontração monetária para não levar os países para uma recessão muito profunda, mas é o caminho contrário do que o BCE sinaliza.

Ou seja, o Club Med terá que ter políticas monetária e fiscal contracionistas e não terão uma saída clássica de crescimento via depreciação da taxa de câmbio. Mesmo a decisão esperada de um corte na dívida talvez não seja uma solução definitiva, pois, apesar de diminuir um pouco o peso fiscal, ainda assim um ajuste deflacionário teria que ser feito.

A solução aventada de retomar o exemplo do Plano Brady na década de 80, muito incentivado recentemente pelo economista Barry Eichengreen, também dependeria desses países terem maior flexibilidade de políticas monetária e fiscal. Muito por isso o caso europeu se torna bem mais grave do que o dos países latinos duas décadas atrás.

Enfim, a Europa promete ser um mar de volatilidade nos próximos meses, sem uma solução definitiva concreta à vista. A escolha do substituto de Kahn poderá ou não antecipar o que seria a solução paliativa do corte na dívida.

Mas mais do que o perfil do próximo diretor, está a decisão que cabe à Europa do que fazer para solidificar sua moeda. Essa, a discussão a mais importante, nem começou a ser delineada ainda.

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Sérgio Vale é economista-chefe da MB Associados

Fonte: Brasil Econômico - 23/5/2011
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