05/05/2011

O ganha-ganha em que a maioria perde

Luciano Martins Costa - Jornalista e escritor, consultor em estratégia e sustentabilidade

Um dos grandes desafios da busca pela sustentabilidade, no âmbito do Estado ou no setor privado, é a ruptura com práticas que costumavam funcionar até poucos anos atrás e que, submetidas aos novos paradigmas dos negócios e da administração pública, resultam em riscos e custos adicionais.

Um desses conceitos, conhecido como negociação ganha-ganha, pontuou muitas contratações entre empresas e destas com o Estado, significando que as duas partes se beneficiavam com tais acertos.

Submetida ao teste dos novos paradigmas da sustentabilidade, a busca do ganha-ganha se revela apenas como um ajuste de objetivos específicos que raramente contemplam o interesse difuso da sociedade ou do mercado.

Uma das razões é simples: com a ampliação do conceito de stakeholders, ou públicos de interesse de qualquer atividade produtiva, a medição dos resultados passa a ter de contemplar um leque cada vez mais extenso de partes interessadas ou afetadas, exigindo uma infinidade de ganha-ganha-ganha, até o último dos interesses legítimos.

Outro motivo da falência dessas negociações bipartites nas quais os negociadores principais ganham e o resto paga a conta é que essa prática se revela como o ponto crucial do grande problema da corrupção, que afeta não apenas o setor público mas também um número significativo de empresas privadas.

Imagine-se, por exemplo, a situação muito realista na qual o comprador recebe propina ou aceita brindes de aparência inocente para privilegiar determinado fornecedor. Ambos ganham, mas a empresa, seus clientes e acionistas, além de outros stakeholders, podem sair perdendo com as negociações resultantes.

No setor público, a estratégia do ganha-ganha está na raiz da ineficiência e da baixa produtividade que vigorou durante muito tempo no mercado, e pode ser apontada como uma das causas da persistência de grandes mazelas como a falta de saneamento básico e a dificuldade para modernizar o sistema de tratamento e destinação de lixo.

Isso sem contar os problemas no fornecimento de merendas para escolas públicas, deficiências de materiais escolares e em muitos outros itens negociados com base em supostas vantagens para os dois lados.

Se pelo menos uma das partes realmente representasse o interesse público, o conceito poderia ser válido, mas esse ainda é, na maioria dos casos, um elemento de ficção. A realidade que persiste em todos os níveis da administração pública é a do conluio de interesses privados.

Mas, quando se fala de corrupção, as atenções se voltam completamente para os agentes do Estado, quando na verdade o problema pode ter sua origem e ponto de resistência no setor privado.

Empresas que adotam os princípios da sustentabilidade não investem apenas na prevenção dos danos ambientais de sua atividade ou nas suas responsabilidades sociais.

Tratam de agir internamente e em seus setores no sentido de eliminar as práticas lesivas à concorrência equânime e de impor novos padrões éticos. Quando essas práticas afetam diretamente a saúde de milhares de pessoas, estamos falando de muito mais do que irregularidades como concussão ou fraude.

Estamos lidando com criminosos de alta periculosidade.

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Luciano Martins é jornalista e escritor, consultor em estratégia e sustentabilidade

Fonte: Brasil Econômico - 5/5/2011

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