16/06/2011

O estado da indústria brasileira

Júlio Gomes de Almeida - Professor da Unicamp e Consultor do Iedi

Os últimos dados da indústria jogaram uma ducha de água fria em quem acreditava que o setor deixara para trás uma fase de declínio e marchava em direção a uma etapa de expansão.

Em abril com relação a março, a produção caiu 2,1%. Com isso, os quatro primeiros meses do ano frente ao mesmo período de 2010, acusam aumento de apenas 1,6%, indicando uma débil perspectiva de evolução para 2011.

Ao contrário do que se pensa, o parque industrial brasileiro não vive um bom momento e isso não é de hoje. Antes da crise, o crescimento era vigoroso, o que só voltaria a se repetir durante a recuperação do colapso sofrido quando o contágio da quebra das economias centrais chegou ao Brasil no último trimestre de 2008.

Em outras palavras, a indústria avançou muito em 2009 e parte de 2010 porque antes, sob o efeito da crise internacional, caíra muito.

Tomando o mês de dezembro de 2008 como o "fundo do poço" da crise até março de 2010, a produção teve aumento de 26,3%, retornando ao nível anteriormente alcançado.

Desde então a indústria "patinou" em torno a uma tendência levemente declinante até outubro de 2010, quando pareceu ter início uma branda reativação.
No primeiro desses dois processos houve recuo de 2,8% e ampliação de 4% no segundo.

O ganho líquido de 1,2% pode ser considerado diminuto nesse período de um ano (março/2010 a março/2011) em que o mercado interno e a economia mostravam alto dinamismo. Pois bem, este tímido quadro de retomada viria a ser interrompido em abril.

Pode parecer um contra-senso, mas a rigor a indústria brasileira não saiu do lugar desde o auge que precedeu a crise até os dias de hoje.

O revés de abril pode estar super estimado, pois em uma parcela relevante reflete um tombo de 10,1% na produção de bens de consumo duráveis, não compatível com a evolução dos principais determinantes da demanda desses bens.

Efetivamente, a renda pessoal e o crédito estão sendo contidos, seja porque a economia desacelerou, seja em razão das medidas macroprudenciais que detiveram a evolução dos empréstimos para as famílias.

Em paralelo, há uma progressiva penetração de importados. Mas, mesmo com esses fatores entrando em cena não se justifica um retrocesso tão forte.

Mais estrutural parece ser o comportamento de bens intermediários, onde uma concorrência cada vez mais generalizada do produto importado favorecido pelo câmbio é o fator de fundo para uma estagnação que se prolonga por vários meses.

Fato novo e fonte de preocupação adicional, o setor de bens de capital sofreu um declínio de quase 3%.

A conferir se os próximos desdobramentos nesse caso confirmam ou não uma retração do investimento na economia brasileira.

Não seria nada positivo que o presente ciclo de aumento de juros viesse derrubar a taxa de inversão abaixo dos atuais 20% do PIB, nível este conquistado a duras penas e que nem sequer constitui o padrão adequado para sustentar o crescimento de longo prazo do país.

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Julio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e consultor do Iedi

Fonte: Brasil Econômico - 16/6/2011
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