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Santos, SP/

30/03/2011

O direito de ser ouvido

Ricardo Galuppo - Diretor de redação do Brasil Econômico

Anos atrás, ouvi do então presidente da Fiemg, o empresário José Alencar Gomes da Silva, uma queixa que, à época, me pareceu sem cabimento. Com o mesmo ar de quem não defende, mas explica as ideias - que o país conheceria mais tarde, quando ele chegou à Vice-presidência da República -, Alencar reclamou do tratamento da imprensa aos empresários.

Disse o seguinte: quem assume riscos, gera empregos e recolhe impostos só merece destaque quando falha. O empresário só aparece como mau patrão, como sonegador ou como caloteiro.

Em resumo, disse que as companhias tinham o direito de ser ouvidas e ter suas opiniões levadas em conta. O desabafo veio num momento informal, perto do fim da conversa.

Confesso que, na hora, considerei a queixa sem cabimento. Minha visão, ali, era marcada pelo maniqueísmo anterior à queda do Muro de Berlim.

Os empresários, para mim e muitos outros, impunham com instrumentos que incluíam a imprensa suas posições sobre a dos trabalhadores.

Nunca me ocorreu lhe dizer isso, mas, de certa forma, a conversa com Alencar ajudou a mudar minhas convicções. Aos poucos e por meio da convivência com muitos deles, passei a respeitar suas posições, até o ponto de dar razão a queixas como as de Alencar.

Em certos momentos, a parcialidade é total e as empresas, apenas por serem empresas, são condenadas sem o direito de emitir sua opinião. Foi o que aconteceu, por exemplo, nos recentes conflitos no canteiro de obras da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia.

Poucos jornais (entre os quais o Brasil Econômico se inclui com orgulho) se preocuparam em destacar a opinião do consórcio que toca a obra. Uma avaliação mais detida mostra que, por trás das supostas condições deploráveis impostas aos trabalhadores nos alojamentos e nos refeitórios, há em Jirau uma disputa entre a CUT e a Força Sindical pelo controle da "massa".

Ali, como em outros conflitos, os manifestantes não são necessariamente os mocinhos e o consórcio não é o bandido.

Além do império industrial que construiu, do sucesso na política e da simpatia conquistada na luta contra o câncer, Alencar contribuiu para humanizar a figura do empresário brasileiro. Pode parecer pouco, mas não é.

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Ricardo Galuppo é diretor de redação do Brasil Econômico

Fonte: Brasil Econômico - 30/3/2011
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