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Santos, SP/

20/03/2012

O Bartleby em todos nós

Marcelo Nakagawa - Professor e Coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper

Não. Prefiro não. Prefiro não fazer. Prefiro não fazer isto. Ou mesmo aquilo. Eu sei, mas prefiro não. Sei fazer, mas prefiro não. Sei que é importante, mas prefiro não. Prefiro não agora. Prefiro não. Não. Até tentei colocar algumas palavras a mais nas frases de Bartleby, mas ele prefere não.

Aclamado como uma das obras literárias mais importantes para a humanidade, Bartleby é o título e o personagem principal do conto escrito em 1853 por Herman Melville, mais famoso por Moby Dick.

Na estória, Bartleby é auxiliar em um escritório em Wall Street. Tudo ia bem até que certo dia, ao ser requisitado para revisar um documento, ele simplesmente responde: prefiro não fazer.

Depois que a irritação passa, seu chefe tenta entender porque ele agia daquela forma. E Bartleby continuou preferindo não fazer cada vez mais coisas. E um dia, morreu de fome. Preferiu não comer.

Mas ele preferiu não ir embora e passou a existir em todos nós e nas coisas que preferimos não fazer em nosso dia-a-dia.

Coisas triviais como preferir não se dedicar mais aos estudos e depois sentir falta de um conhecimento específico no futuro, de preferir não apostar no seu talento pessoal e depois reclamar sobre suas condições de trabalho e de preferir não ajudar o mundo a ser melhor e depois ficar horrorizado com as notícias do jornal.

Para os que se incomodam com a Síndrome de Bartleby há vários tratamentos. Um deles chegou ao Brasil em 1979 vindo do Vietnã e se chama Thai Quang Nghia. Bartleby desaparece no momento em que Nghia surge entre nós. Ambos não falavam, não tinham dinheiro e nem perspectiva de futuro.

Mas Nghia só não falava, no início, porque não sabia uma só palavra em português. Resgatado por um navio da Petrobras no Oceano Pacífico e fugindo do regime comunista do seu país, chegou ao Brasil só com a roupa do corpo e sem nenhum dinheiro.

Sobreviveu nos primeiros meses com uma ajuda de US$ 50 mensais que recebia da Organização das Nações Unidas (ONU) como refugiado. Seu futuro parecia ser o mesmo dos outros que se refugiaram no Brasil: desconhecido.

Mas não é que Nghia preferiu estudar! Em um caderninho simples criou um dicionário vietnamita-português. Lia livros nas bibliotecas públicas no centro da cidade para aprender nosso idioma e nos sebos para prestar vestibular. Cinco anos depois entrava no Instituto de Matemática e Estatística (IME/USP). Isto é uma humilhação para os Bartlebies que querem atingir seus objetivos.

Nghia conseguiu um bom emprego na área de informática de um grande banco. Ganhava bem, mas preferiu apostar no seu talento pessoal de criar relações pessoais em vendas e fundou a Yepp, que depois se tornou a Góoc, para comercializar bolsas e calçados.

Para quem já foi um naufrago e chegou ao país sem nada, começar um novo negócio era um desafio mentalmente simples. Isto é uma provocação para os Bartlebies que querem apostar em seus potenciais.

Mas Nghia não queria montar um negócio qualquer, queria devolver as coisas boas que tinha recebido do país que o acolheu. Com isto, a Góoc se especializou em moda sustentável há mais de duas décadas, quando sustentabilidade era apenas um princípio da física.

E isto é uma inspiração para os Bartlebies que querem mudar o mundo. É bem provável que prefira não decorar o nome deste tratamento para a Síndrome de Bartleby.

Mas tenho certeza que não se esquecerá do seu principio ativo: empreendedorismo. É isto que nos torna menos Bartleby e mais a expressão de nós mesmos.

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Marcelo Nakagawa é professor e coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper

Fonte: Brasil Econômico - 20/3/2012

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