19/05/2011

Não à parceria público-privada

Costábile Nicoletta - Diretor Adjunto do Brasil Econômico

No começo de 1999, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) perguntou ao economista Armínio Fraga o que o motivara a trocar um emprego muito bem pago na empresa do mundialmente conhecido investidor húngaro-americano George Soros por um cargo no funcionalismo público federal, mais especificamente a presidência do Banco Central.

Fraga havia sido indicado pelo então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, para substituir Francisco Lopes, que alguns meses antes tentara controlar o câmbio instituindo "a banda diagonal endógena", que até hoje 99% da população brasileira não tem a menor ideia do que significa.

Francisco Lopes teve de deixar o cargo não só porque sua banda diagonal endógena não deu certo. Pairaram sobre ele suspeitas de ter favorecido os bancos Marka e Fonte Cindam, que teriam recebido informações "privilegiadas" de pessoas próximas de Lopes sobre a cotação da moeda americana, perderam um dinheirão com isso e tiveram de ser socorridos pelo BC, a fim de que se evitasse um "risco sistêmico".

Armínio Fraga respondeu a Pedro Simon que gostaria de prestar um bom serviço ao país. "O patriotismo do senhor me surpreende", ironizou o senador gaúcho. Fraga conduziu o BC até o final dos tempos da era FHC, em 2002, e impressionou tão bem que chegou a ser cotado para ficar no cargo no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Não aceitou, e quem ficou na presidência do BC até o fim da era Lula, em 2010, foi Henrique Meirelles, oriundo do mercado financeiro privado, tal qual Fraga e muito bem-sucedido na função pública, assim como seu antecessor.

A rota público-privada sempre será vigiada pelo ceticismo demonstrado por Pedro Simon, e é bom que seja assim, pois não convém misturar os interesses públicos com os privados. É legítimo que titulares de ministérios e outros cargos de alto escalão do governo ganhem a vida fora dos limites de Brasília depois que deixarem seu posto, desde que não tenham que esconder o que façam.

Qual o problema de os clientes do então consultor Antonio Palocci serem conhecidos publicamente, agora que voltou a ser ministro?

Tal omissão causa a mesma suspeição que recai sobre as empresas que não revelam serem doadoras de campanhas políticas, muito menos quanto despendem com esse ato de contribuição à democracia brasileira, tampouco seus objetivos com isso.

Sobrepõem-se a qualquer cláusula de confidencialidade as razões que a fizeram constar nos contratos. Assim como os doadores de campanha, se nada há de desonesto, não há por que ficar em sigilo.

Isso só alimentará a desconfiança de que trabalhar em altos escalões do funcionalismo público assegura no futuro uma remuneração jamais imaginada no presente.

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Costábile Nicoletta é diretor adjunto do Brasil Econômico

Fonte: Brasil Econômico - 19/5/2011
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