25/04/2011

Modelo mental ou tecnologia, o que deve vir primeiro?

Ryon Braga - Presidente da Hoper Educação

Em função de uma pesquisa que realizo, tenho assistido aqui e ali algumas aulas nas universidades brasileiras, nos mais diferentes cursos. Recentemente assisti a uma aula do curso de direito em uma tradicional universidade brasileira onde testemunhei a trama que segue.

Com 47 alunos em sala, sendo 38 deles com notebooks ou tablets ligados e conectados à internet, o professor José (nome fictício) inicia sua tradicional aula.

Lembra aos alunos que o conjunto de slides que irá projetar, referentes à aula número 12, já estava disponível na página da disciplina há mais de 20 dias e pergunta quantos já haviam lido o material.

Um pouco menos do que 50% dos alunos levantou a mão confirmando a leitura prévia. Com base nisto, o professor resolveu "nivelar" a aula, repetindo e "explicando" o conteúdo dos slides um a um.

Em dado momento da aula se deu conta de que boa parte dos alunos estava digitando sem parar, obviamente fora do contexto da aula. Escolheu "aleatoriamente" um aluno e virou seu computador para ver o que se passava.

Descobriu que este aluno estava com quatro janelas abertas em sua área de trabalho. Uma delas com os slides da aula, outra com o programa de comunicação MSN, conversando com mais cinco colegas da própria classe.

Uma terceira janela, com a rede social Facebook, onde ele postava suas fotos do último final de semana e, por fim, uma quarta janela onde ele digitava um texto referente ao trabalho de outra disciplina, previsto para ser entregue no dia seguinte.

O professor, demonstrando uma certa irritação, disse ao aluno que se ele dá prioridade a fazer outras coisas em vez de assistir à aula, então que ficasse fora da sala e não atrapalhasse, convidando-o a retirar-se.

O aluno, um tanto inseguro e surpreso com a atitude do professor, ainda tentou argumentar:

— Mas professor, disse ele, eu estou quieto e não estou atrapalhando ninguém. Além do mais, estou prestando atenção no que o senhor fala, mas como eu já li os slides em casa e até agora não teve nenhuma novidade, a não ser a mera repetição do que está no texto, eu estou aproveitando o tempo para adiantar outras coisas importantes. Se o senhor falar alguma coisa mais relevante ou diferente do que eu já li, eu prestarei mais atenção.

Achei a sinceridade e, até certo ponto, ingenuidade do aluno, desconcertantes. Evidentemente o professor José não achou, pois expulsou o aluno da sala assim mesmo.

Mediante o ocorrido passei a refletir sobre a seguinte questão: a velocidade com que a tecnologia instrumentaliza o saber e nos oferece condições de otimização do processo de ensino e aprendizagem, obviamente, está sendo muito maior do que a velocidade com que conseguimos adequar nossos modelos, metodologias, didáticas, modus operandi e até mesmo paradigmas.

Não consigo me conformar com a ideia de que é preciso esperar uma geração inteira para que as coisas possam ser diferentes.

Será que sempre seremos "atropelados" pelos avanços tecnológicos e as mudanças que eles nos impelem? Ou podemos fazer diferente? Podemos acompanhar a tecnologia e tirar partido dela em função de algo muito maior do que ela: nosso aprendizado e nossa evolução.

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Ryon Braga é presidente da Hoper Educação

Fonte: Brasil Econômico - 25/4/2011
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