27/06/2011

Falta de condições de competir abre espaço para a desindustrialização nacional

MAURÍCIO GODOI

São Paulo - A Unigel, companhia petroquímica que produz resinas para diversos segmentos, decidiu investir cerca de US$ 400 milhões em uma fábrica de metacrilato e cianeto no México em decorrência do alto custo do gás natural. A Honda transferiu a produção do seu modelo mais recente, o City, para a Argentina, que se tornará a base de exportação desse veículo para o Brasil. A Vicunha Têxtil recorreu aos vizinhos Equador e Argentina para fazer frente aos produtos vindos da China e conquistar uma parcela do mercado europeu e norte-americano. A Vulcabrás, que tem fábrica na Argentina, inicia em agosto operação na Índia para enfrentar os chineses. Indústrias têxteis estão preferindo produzir no Paraguai a fazê-lo no Brasil. Estes são bons exemplos para ilustrar o momento vivido pela indústria brasileira. A falta de condições de competir no mercado internacional e o peso do Custo Brasil começam a desmontar um setor que já era bem estruturado no País.

Isso demonstra que um processo de desindustrialização está em pleno curso. Cada vez mais, empresas nacionais optam por produzir em países onde o custo fixo de produção proporciona melhores condições de competitividade ante a concorrência internacional.

Entretanto, mesmo com esse cenário, especialistas afirmam que o setor produtivo ainda pode reverter esse processo de perda da indústria, se o País conseguir melhorar a competitividade deste setor.

"A ameaça de a indústria recuar é verdadeira, mas o setor produtivo ainda tem capacidade de reverter esse processo", afirmou o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério Cesar de Souza. Para ele, este cenário desenhado pelas empresas, combinado à alta taxa de juros para controle da pressão inflacionária no País e à perspectiva de entrada de mais capital estrangeiro no longo prazo em função de pré-sal, Copa do Mundo e Olimpíadas, deve acelerar o processo de valorização do real por muito tempo.

Um dos indicadores macroeconômicos mais diretamente afetados é a balança comercial do setor de manufatura. Em 2010, foi registrado um déficit recorde de US$ 70,9 bilhões, como mostra um estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A marca representa crescimento de 95% em relação ao saldo negativo de US$ 36,5 bilhões de 2009.

"O Brasil precisa utilizar a experiência internacional de países que perderam a capacidade industrial. Se não houver medidas que fortaleçam a indústria brasileira podemos passar, no longo prazo, por um processo semelhante à 'Doença Holandesa'", ressaltou o economista, referindo-se ao fenômeno registrado naquele país nos anos 70, quando a descoberta de gás provocou a forte entrada de capital estrangeiro que levou à valorização excessiva do câmbio e à redução do número de indústrias.

Na opinião do economista e pesquisador sênior do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Régis Bonelli, a substituição da indústria pelo setor de serviços na composição do Produto Interno Bruto (PIB) é tendência mundial. De acordo com ele, à medida que os países vão se desenvolvendo, primeiro aumenta muito a demanda por bens industriais, algo decorrente da urbanização. Isto é o que está acontecendo, por exemplo, com a China. No momento seguinte, as pessoas começam a diminuir seu consumo de bens e começam a consumir mais serviços. O problema do Brasil é que a maturação aparente do consumo de bens industriais está ocorrendo muito antes do que em países desenvolvidos, situação também identificada pelo economista-chefe do Iedi.

Bonelli afirma que ainda é complicado dar peso individual a cada um desses movimentos; ainda temos outros problemas macroeconômicos, como o câmbio valorizado. A elevação da classificação de risco do País deverá atrair mais dólares e forçar a uma valorização de nossa moeda.

Fases

Para o economista do Iedi, a reversão desse quadro passa por dois momentos. O primeiro consiste na adoção das medidas de incentivo à indústria que estão em discussão entre o governo e as empresas no Plano de Desenvolvimento da Competitividade (PDC); o segundo depende das tão esperadas reformas institucionais no País, entre as quais está a fiscal, a tributária e a trabalhista.

A pressão que a questão tributária impõe ao Brasil é explicitada por Michael Lehmann, gerente executivo de Contabilidade e Impostos da Volkswagen no Brasil. De acordo com ele, a montadora alemã paga entre R$ 4 bilhões e R$ 5 bilhões ao ano somente de impostos e esse valor está embutido no preço final do produto.

Enquanto essas medidas não chegam, o déficit comercial em alguns dos principais setores da indústria de transformação continua a apresentar desempenho negativo. Uma das associações que reforçam essa tendência é a da indústria elétrica e eletrônica (Abinee), que projeta déficit comercial de R$ 33,4 bilhões somente em 2011. Este número, se confirmado ao fim do ano, representará um incremento de 23% sobre os valores de 2010.

Outro setor que deverá pressionar a balança de pagamentos é o químico. Segundo os últimos números da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), referentes a maio, as importações de produtos atingiram US$ 3,6 bilhões, valor recorde para o ano. Nos últimos 12 meses, de junho de 2010 a maio de 2011, o déficit ficou em US$ 22,7 bilhões. Segundo o presidente da entidade, Fernando Figueiredo, a expectativa é de que o setor fechará o ano com balança negativa de US$ 24 bilhões.

Os setores têxtil e calçadista também expõem a fragilidade do setor produtivo brasileiro com perspectiva de perdas em razão da concorrência asiática aqui.

Na opinião do presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Milton Cardoso, esse movimento continuará nos próximos quatro anos caso as condições sejam mantidas.

É por conta desses movimentos rumo ao exterior que a participação do setor produtivo está se reduzindo cada vez mais na composição do PIB. De acordo com o economista-chefe do Iedi, um parâmetro que mostra a queda da participação da indústria brasileira de transformação na geração das riquezas caiu de 30% do total na década de 80 para cerca de 15%. "A indústria está ficando para trás por conta das importações, que às vezes atendem a toda a demanda de um produto", afirmou Souza.

Um reflexo desse sentimento pode ser visto em uma pesquisa do Sindicato da Micro e Pequena Indústria do Estado de São Paulo (Simpi-SP). O levantamento mostra que 45% dessas empresas afirmaram ter perdido mercado para produtos similares adquiridos no exterior. Um fator fundamental para esse fato é a política de câmbio artificial chinesa, que coloca o iuane a um valor 60% mais baixo que o do dólar.

Inovação

O quadro de falta de produtos similares no mercado nacional expõe uma deficiência que afeta diretamente a competitividade das empresas menores: o acesso à inovação. O fator também citado pelo representante do Iedi.

Como forma de tentar reverter esse quadro, o governo e a CNI acertaram as bases da criação de uma empresa para desenvolver projetos de inovação voltada para o setor produtivo. Segundo o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, a empresa seguiria o mesmo modelo da Embrapa, mas seria voltada para o desenvolvimento industrial.

O presidente da CNI negou que a criação da "Embrapi" se configure em uma contrapartida do setor privado em resposta ao PDC, a segunda versão do programa de incentivo à indústria que deverá ser anunciado em agosto.

Fonte: Diário do Comércio - 27/6/2011
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