27/07/2011

Elas estão mais próximas do comando dos bancos centrais

No começo do Século XIX, uma investidora conhecida como a "Viúva Borski" adquiriu quase metade das ações do novo Banco Central da Holanda, criado para ajudar uma nação abalada pelas guerras. Dois séculos depois, as mulheres respondem por apenas um décimo do poder de voto sobre as principais taxas de juros do mundo. Banqueiras centrais do passado e do presente, no entanto, afirmam que isso deverá mudar.

Segundo elas, uma representação mais forte do gênero poderá resultar em uma percepção mais ampla sobre o comportamento econômico e até mesmo promover uma maior estabilidade financeira. "Se tudo envolver apenas os homens, então você estará excluindo uma ampla gama de opiniões", disse DeAnne Julius, ex-formuladora da política monetária do Banco da Inglaterra e hoje presidente do conselho de administração da Chatham House, um grupo internacional de pesquisas. "As mulheres possuem dinâmicas sociais e compram em lugares diferentes. Isso cria uma representação mais diversificada de experiências."

Entre os funcionários que votam nas políticas monetárias dos países do G-20, apenas cerca de 10% são mulheres. Elas comandam os bancos centrais da Argentina, África do Sul, Malásia, Honduras, Botsuana e Bahamas, e atualmente formam a maioria dos presidentes regionais do Fed. A rotatividade recente no Banco Central Europeu (BCE) e no Banco da Inglaterra deixou as políticas dessas instituições em mãos masculinas. No momento, não há mulheres entre os que decidem sobre as taxas de juros na Austrália, Brasil, Indonésia, Índia, México e Turquia.

Um maior equilíbrio, no entanto, poderá ser alcançado uma vez que há mais mulheres trabalhando no setor financeiro e econômico. Julius, porém, diz que os governos poderão ter de seguir o Quênia e o Japão, introduzindo cotas. O Banco Central do Quênia exige que dois dos quatro membros de seu comitê externo sejam mulheres, o que eleva a participação delas para 25% na decisão sobre os rumos dos juros. Desde 1998, o Banco do Japão reserva um dos nove assentos do conselho de política monetária para uma mulher.

Segundo uma pesquisa feita pela Boston Consulting com 23 mil representantes do sexo feminino em 22 países, são as mulheres que conduzem 70% dos gastos totais dos consumidores e decidem como suas famílias usam os serviços financeiros, seguros e planos de saúde. "Elas são as diretoras financeiras de seus lares", compara Michael Silverstein, diretor da Boston Consulting e coautor de "Women Want More". O livro estima que, até 2014, elas ganharão cerca de US$ 18 trilhões por ano e controlarão até US$ 28 trilhões em gastos.

A presidente regional do Fed Elizabeth A. Duke diz que as mulheres respondem por 80% de todas as decisões de gastos do consumidor nos Estados Unidos, realizando 93% das compras de alimentos e 65% das compras de automóveis. "Como elas se envolvem mais nas compras da família, estão sempre a par das mudanças de preços e da inflação. Administram os lares e sabem exatamente o que fazer para esticar o orçamento."

As mulheres oferecem outras habilidades às decisões sobre as taxas de juros, diz Anne Sibert, que pertence ao conselho do Banco Central da Islândia. Os homens podem "ser confiantes demais e gostar de correr mais riscos", explica. "Eles têm uma postura agressiva, o que pode ser destrutivo", diz Sheila M'Mbijjewe, do conselho do Banco Central do Quênia. Esse argumento se reflete em estudos de John Coates, um ex-operador de derivativos do Deutsche Bank. Seu trabalho sugere que algumas diferenças na tomada de riscos podem ser explicadas pelo fato de que as mulheres produzem cerca de 10% da testosterona de um homem médio na casa dos 20 anos. Os bancos de investimento tinham apenas 2% a 3% de operadoras, mas elas representavam 60% dos gestores de ativos, que têm mais tempo para analisar os riscos.

Três mulheres têm assentos no comitê de mercado aberto do Fed, formado por dez membros: Elizabeth Duke, que já foi diretora operacional do TowneBank de Virgínia; Sarah Bloom Raskin, ex-comissária de regulamentação financeira de Maryland; e a vice-presidente do conselho Janet Yellen, que presidiu o Conselho de Assessores Econômicos sob o governo Bill Clinton e comandou o Federal Reserve Bank de San Francisco. Na Argentina, Mercedes Marco del Pont, ex-presidente do estatal Banco de la Nación Argentina, comanda o Banco Central do país desde fevereiro de 2010. Gill Marcus, ex-presidente do conselho de administração do Absa Group do Barclays, foi nomeada presidente do Banco Central da África do Sul em novembro de 2009. Fora do G-20, Zeti Akhtar Aziz preside do Banco Central da Malásia, Maria Elena Mondragon comanda o Banco Central de Honduras, Wendy Craigg o Banco Central das Bahamas e Linah Mohohlo o Banco Central de Botsuana.

Apenas duas mulheres - Gertrude Tumpel-Gugerell e Sirkka Haemaelaeinen - tiveram qualquer poder de decisão sobre as taxas de juros estabelecidas pelo BCE desde a implementação do euro em 1999. Os homens respondem por 27 dos 31 funcionários que decidiram a política monetária do Banco da Inglaterra desde que ele ganhou independência em 1997.

As mulheres precisam ter mais iniciativa, diz Joanne Kellermann, diretora-executiva do Banco Central da Holanda. Sua instituição tem um motivo especial para elogiar as mulheres depois de ter sido financiada, no começo dos anos 1800, por Johanna Pieters Borski. Viúva de um rico comerciante de arroz e grãos, Borski ajudou o rei Guilherme I ao comprar duas mil das cinco mil ações iniciais do banco, atraindo outros investidores e realizando lucros.

Embora o Banco Central holandês caminhe para ter mulheres em um terço dos cargos administrativos, Kellermann diz que interferiu no ano passado para acrescentar uma mulher à lista de pretendentes a um cargo. "Muitas têm uma tendência, por natureza, de esperar até que a organização perceba seu potencial. Elas apenas se candidatam a um cargo se atenderem com folga todas as exigências", diz.

No Reino Unido, legisladores vêm conclamando as mulheres a considerar a entrada no comitê de política monetária do Banco da Inglaterra, mas quando uma vaga foi aberta este ano, havia apenas uma mulher entre os 27 candidatos. O mesmo posto anteriormente atraiu 34 homens e 4 mulheres. Kate Barker, a mulher que passou mais tempo no comitê de política monetária do Banco da Inglaterra, disse que nunca se sentiu alvo de preconceito ou menosprezo. Ela participou do conselho de 2001 a 2010 e é hoje uma consultora sênior do Crédit Suisse Group. "É estranho passar o dia todo em uma sala com 13 sujeitos. Você precisa estar sempre alerta para que tenha o mesmo peso e o mesmo tratamento."

Parte do problema pode estar na falta de mulheres com qualificações relevantes e habilidades técnicas, afirma Anne Sibert, do conselho do Banco Central da Islândia, que também dá aulas de economia na Birkbeck University de Londres. "A macroeconomia tradicionalmente é um campo dominado pelos homens. Isso promove um comportamento agressivo. Pode ser difícil para as mulheres superar o problema."

Uma pesquisa da Financial News de Londres mostrou que menos de 5% dos executivos de maior graduação nos bancos de investimentos são mulheres. Susan Phillips, 67, ex-planejadora econômica do Fed, lembra-se de uma reunião de banqueiros centrais na Basileia, Suíça, em que o então presidente do BCE Win Duisenberg abriu os trabalhos saudando os "senhores e a senhora Phillips". "Isso vai mudar, mas levará tempo", afirma.

Svenja O'Donnell e Simon Kennedy | Da Bloomberg
(Tradução de Mario Zamarian)

Fonte: Valor Online - 27/7/2011

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