24/05/2011

Desonestidade política

Ricardo Galuppo - Diretor de redação do Brasil Econômico

A questão não se resume a flexibilizar a gramática em nome de hábitos culturais que levam brasileiros, aqui e ali, a se desviarem das normas cultas da língua portuguesa.

Se fosse apenas isso, com toda sinceridade, eu continuaria considerando um erro a adoção do livro Por Uma Vida Melhor - que o Ministério da Educação mandou distribuir a algumas escolas do país -, mas me limitaria a encarar a questão como mais um dos equívocos cometidos em nome da ideologia daqueles que sonham em transformar o Brasil numa imensa Venezuela.

O problema é que a questão é mais séria do que parece e, mais perigoso do que o livro em si, são as intenções que parecem existir por trás dele. Por trás do absurdo de se considerar "preconceito linguístico" apontar os erros de quem se expressa num português incorreto, existe uma visão pedagogicamente desatualizada, socialmente injusta e politicamente desonesta.

Se continuar nesse ritmo, daqui a pouco esses senhores considerarão "preconceito aritmético" se um freguês culto reclamar de um garçom que a conta do restaurante está errada. Vamos por partes.

Por mais óbvio que seja, nunca é demais repetir que ninguém evoluiu no aprendizado se não for estimulado a sair da zona de conforto - e apenas isso basta para atestar a desatualização pedagógica dos que entendem que "o errado é que está certo".

A questão é socialmente injusta porque a sociedade é cruel com aqueles que se desviam do padrão de expressão que, no caso do idioma português, é inclusive objeto de acordos internacionais.

Um bom conhecimento da língua aumenta as oportunidades na disputa pelos melhores empregos. Ainda que o ministério não veja problema nenhum em escrever errado, nenhuma empresa séria confiará a operação de uma máquina sofisticada a um operário incapaz de preencher um relatório.

Esse é o lado prático. Outro lado é o do constrangimento a que são submetidas as pessoas que não conseguem se expressar dentro dos padrões.

Meses atrás, o deputado Tiririca foi objeto de execração porque um promotor de São Paulo entendeu que ele, suspeito de analfabetismo, deveria ser tratado com mais rigor do que os políticos fichas-sujas. Sem saber ler e escrever corretamente, Tiririca não poderia tomar posse.

A defesa pública do deputado, que preenche todos os requisitos do livro, seria uma bela maneira de os (perdão) educadores que defendem a nova norma testar seu ponto de vista. Não foi o que fizeram.

Caso abrissem a boca, chamariam atenção para um livro que já estava no prelo e isso poderia colocar o projeto em risco. E o projeto, no limite, pode servir a propósitos muito mais sórdidos do que a simples e singela aceitação do tal "falar popular".

Estou dizendo que, por hipótese, a flexibilização da norma culta pode conduzir a uma manipulação estatística perigosa. Funciona assim: a nova norma passa a ser utilizada nos testes de verificação de conhecimento dos estudantes.

Assim, os alunos melhoram o desempenho não porque sabem mais, mas porque os critérios tornaram-se mais fáceis. A redução do analfabetismo funcional será comemorada e o Brasil dará mais um passo para se tornar a Venezuela que tantos sonham.

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Ricardo Galuppo é diretor de redação do Brasil Econômico

Fonte: Brasil Econômico - 24/5/2011
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