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Santos, SP/

21/09/2011

Cordialidade, inimiga do avanço da ciência

Luiz Vicente Rizzo - Diretor-superintendente de pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein

Meritocracia: modelo de gestão apresentado pelo sociólogo alemão Max Weber por meio do qual o indivíduo é recompensado de acordo com seus próprios méritos e esforços. Simples? Nem tanto!

A meritocracia deveria ser o norteador em qualquer ambiente de trabalho. A escolha de uma pessoa para ocupar uma posição, receber aumento salarial, progressão na carreira ou bonificação de qualquer espécie deveria ser realizada exclusivamente pela capacidade técnica desse profissional, sendo irrelevante seu sobrenome, seus amigos ou interesses que não o da execução perfeita de seu trabalho.

Teoricamente, esse modelo seria o ideal. Bem-aventurado é o país que consegue colocar os melhores, os mais adequados e os mais preparados em cargos públicos e privados. Mas, infelizmente, o Brasil tem feito um jogo de cartas marcadas e dado exemplos contrários a essa prerrogativa, diariamente expostos nos noticiários e consagrados em resultados desastrosos na administração nacional.

Indivíduos que não servem para síndicos de prédios ocupam altos cargos governamentais, o que resulta na criação de um circo fantástico.

A esfera da atividade científica - que carrega em seu âmago, originalmente, a questão da meritocracia - também não é exemplo perfeito de execução dessa prática de gestão, mas, no entanto, ganha vantagem sobre diversas outras esferas, especialmente a política, por ao menos discutir o assunto e buscar indicadores para determinar méritos que não sejam o apadrinhamento, a oportunidade e o interesse. Nem sempre foi assim.

A necessidade - mãe de toda invenção - foi que compeliu o setor à mudança, quando o departamento de defesa americano decidiu aplicar, durante a Segunda Guerra Mundial, o sistema de revisão por pares em projetos submetidos a financiamento.

É um método organizado para avaliar o trabalho científico, usado por cientistas para garantir que os procedimentos estejam corretos, estabelecer a plausibilidade dos resultados e distribuir recursos escassos - como espaço em revistas, fundos de pesquisa, reconhecimento e reputação.

Apesar da eficiência inicial, esse sistema, depois consagrado em todas as áreas das ciências, ainda demorou bons 20 anos até atingir a avaliação científica na Europa.

Hoje, é impensável distribuir financiamento para pesquisa em qualquer lugar no mundo sem a revisão por pares em um processo onde, teoricamente, o mérito deve ser o único determinante do sucesso.

Evidente que não é fácil estabelecer parâmetros para definir mérito em ciência, mas a simples discussão de que estes devam existir constitui a base para a meritocracia. Em ciência a qualificação de um indivíduo vem do treinamento específico, de sua capacidade de ter e comprovar ideias inovadoras e de transmiti-las. Nas outras áreas também deve ser possível determinar parâmetros amplos como estes.

Muitas coisas no Brasil, inclusive a ciência, são pautadas por certa cordialidade, que acaba forjando uma sociedade onde o senso comum, o razoável, o eficiente, o bom e o belo podem ser colocados em segundo plano.

Infelizmente, essa cordialidade é intrinsicamente incompatível com o avanço da ciência, por isso a necessidade de valores em nossa comunidade científica para conseguirmos caminhar na direção da relevância e excelência de que o país tanto necessita e merece.

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Luiz Vicente Rizzo é diretor-superintendente de pesquisa do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein

Fonte: Brasil Econômico - 21/9/2011
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