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02/02/2012

Brasil pode crescer de forma contínua com taxa de juros menor, diz Werner Baer

Para ex-professor do presidente do BC, País precisa investir mais em infraestrutura e pode se beneficiar com a mão de obra estrangeira.

Ilton Caldeira, iG São Paulo | 02/02/2012 05:40

O processo de redução da taxa de juros no Brasil, iniciado em agosto do ano passado pelo Banco Central, deve contribuir para que o País apresente um crescimento contínuo nos próximos anos. Essa é opinião do economista americano Werner Baer, que foi orientador da tese de doutorado do atual presidente do BC, Alexandre Tombini.

Profundo conhecedor da economia brasileira, o professor na Universidade de Illinois, com doutorado pela renomada Universidade de Harvard, Baer avalia que o principal acerto da política econômica do Brasil foi a manutenção das bases adotadas no passado, garantindo a estabilidade interna e a confiança do mercado financeiro internancional.

De acordo com Baer, é possível o País continuar crescendo com estabilidade de preços, mas desde que o real não tenha uma forte valorização, o que segundo ele, penaliza o setor produtivo. “A redução dos juros levará a uma desvalorização moderada, mas necessária, do real”, avalia o especialista que já deu aulas de economia em instituições brasileiras como a Pontifícia Universidade Católica (PUC), a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a Universidade de São Paulo (USP).

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Autor do livro “A economia brasileira”, onde analisa o perfil de crescimento e desenvolvimento do País, Baer acredita que o investimento em infraestrutura será fundamental para uma expansão em bases mais sólidas. Segundo ele, o Brasil pode se beneficiar, no curto prazo, do fluxo de estrangeiros que chega ao País em busca melhores condições de vida e de proteção contra os efeitos da crise.

Em sua análise, Baer acredita que esses trabalhadores podem minimizar os efeitos da falta de pessoal para a construção civil. Já os profissionais mais qualificados, segundo ele, poderiam contribuir para uma maior sofisticação em áreas do segmento industrial e até mesmo no setor de serviços.

Criador da bolsa destinada a estudantes de Economia de países da América Latina, na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, Baer acredita que os recentes avanços do modelo econômico brasileiro e aliada a uma nova visão do País no cenário mundial credenciam o Brasil a ter um maior peso nas decisões que são tomadas pelo FMI.

A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva concedida ao iG:

iG: O senhor acompanha de perto o comportamento da economia do Brasil. Qual sua a avaliação sobre a condução da política econômica no primeiro ano de governo da presidenta Dilma Rousseff, tendo Alexandre Tombini, seu ex-aluno, no comando do Banco Central?

Werner Baer: A condução da economia adotada pelo Brasil tem se justificado. O ponto principal foi a manutenção das bases adotadas no passado e a continuidade da política econômica preocupada com a manutenção da estabilidade de preços, o que preservou a tranquilidade do mercado internacional. Mas algumas medidas recentes acabaram tendo um impacto negativo no crescimento.

iG: O governo brasileiro vem tentando conciliar metas distintas como reduzir juros, acelerar o crescimento e manter a inflação dentro da meta. Qual sua avaliação?

Baer: Minha avaliação é que até agora o governo tem conseguido. A necessidade de investimentos em infraestrutura garante crescimento, mas o governo também deve prestar atenção ao desempenho do setor industrial, que tem sofrido com a valorização cambial do últimos anos.

iG: São metas possíveis?

Baer: Crescimento com estabilidade é possível, mas esse processo deve ser feito sem um real supervalorizado.

iG: Estamos no caminho certo?
Baer: Ao que tudo indica, sim.

iG: A inflação pode seguir controlada apenas com os efeitos gerados pela desaceleração da economia internacional como tem sido defendido pelo Banco Central para embasar a redução da taxa de juros?

Baer: Menores taxas de juros contribuirão para um crescimento econômico contínuo no Brasil. Essa medida também levará a uma desvalorização moderada, mas necessária, do real.
 
iG: O que o Brasil precisa para avançar mais de forma sustentável?

Baer: As necessidades mais importantes são os investimentos em infraestrutura e mais ênfase do que no passado em desenvolvimento do capital humano, com reformas educacionais e investimentos na formação profissional.

iG: O mercado de trabalho brasileiro tem atraído muitos trabalhadores estrangeiros. Como o senhor avalia essa questão?

Baer: O Brasil pode se beneficiar, no curto prazo, de mão de obra de estrangeiros com pouca qualificação principalmente em setores como construção. Mas esse fluxo de trabalhadores, que também conta com alguns profissionais mais qualificados vindos da Europa devido a crise, pode contribuir com uma maior sofisticação de segmentos da indústria e do setor de serviços.

iG: Na sua avaliação, a crise financeira na Europa e nos EUA está caminhando para um recrudescimento ou, pelo contrário, o pior já passou?

Baer: Os Estados Unidos parece que estão se encaminhando para uma volta ao crescimento econômico, mas a Europa ainda tem um cenário complicado porque não resolveu seus problemas de endividamento.

iG: De que forma o Brasil pode contribuir para ajudar na recuperação da economia mundial?

Baer: Com um crescimento de 4% a 5% ao ano o Brasil pode contribuir com a recuperação da economia mundial. O país precisará de mais bens de capital e equipamentos para realizar os investimentos necessários em infraestrutura e para ampliar a produção de commodities.

iG: O Brasil está credenciado para exercer uma participação maior nas decisões do FMI?

Baer: O crescimento da economia brasileira e uma maior participação do País no cenário mundial credenciam o Brasil a ter um maior peso nas decisões que são tomadas pelo FMI.

iG: A Grécia, com seu enorme endividamento, é um caso perdido e que já estaria precificado pelo mercado financeiro?

Baer: O problema não é só a Grécia, mas de muitos outros países europeus que se encontram em situação parecida. Terá que haver um ajuste drástico, que inclui sacrifícios de ambos os lados, tanto dos devedores como dos credores.

iG: O problema na Europa será resolvido apenas com uma maior responsabilidade fiscal?

Baer: Uma maior responsabilidade fiscal vai ajudar muito, sem dúvida. Mas a questão é se essa responsabilidade maior com as contas públicas pode ser alcançada sem uma grave crise política nos países envolvidos com essa questão na Europa.

iG: Quais as medidas que deveriam ser adotadas, além do esforço fiscal?

Baer: Muitos países endividados da Europa terão que passar por um período onde os salários e os benefícios irão diminuir, enquanto aumenta a produtividade do trabalho. Dessa forma, os países mais afetados pela crise do endividamento poderão voltar a ter uma economia mais saudável e mais estável.

iG: O desenho da região hoje mostra que a Europa deve sair da crise com outra configuração: de um lado a Europa rica, liderada pela Alemanha, e de outro a Europa menos abastada com papéis e metas mais definidas. Como conciliar essas diferenças em um bloco com a mesma moeda e metas iguais de política fiscal e monetária?

Baer: O quadro atual na Europa é um quebra-cabeça. Um enigma. Talvez o melhor para alguns dos países europeus em dificuldade seria a desvinculação do euro. Dessa forma, alguns dos ajustes necessários poderiam ser feitos por meio de um realinhamento monetário.

iG: Qual o papel da China e do Brasil, as duas maiores economias do grupo de países emergentes (Brics), no cenário econômico atual?

Baer: A China precisa fazer ajustes substanciais. Deixar a sua moeda se valorizar, aumentar a renda do trabalho e os benefícios aos trabalhadores, além de ampliar os investimentos para evitar desastres ambientais. No caso do Brasil, acredito que o País está agindo com mais responsabilidade que a China em todos esses aspectos.

Fonte: iG - 2/2/2012

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