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Santos, SP/

24/07/2012

Bancos de Londres estão perdendo estilo de clube de cavalheiros

# Escândalo de manipulação da taxa interbancária Libor vai contra tradição de séculos de conduta financeira refinada na cidade que se orgulha de estar num nível acima das outras

NYT

O distrito financeiro de Londres, há muito tempo conhecido como o centro por onde flui o dinheiro global, onde os negócios são feitos e – acima de tudo – pela discrição, ultimamente se tornou famoso por uma forma diferente de atividade: escândalos financeiros e comportamentos vergonhosos.

Corretores inescrupulosos operando a partir dos escritórios londrinos das empresas American International Group (AIG), UBS e JPMorgan Chase registram perdas na casa dos bilhões de dólares nos últimos anos. Tentativas de manipular uma taxa de juro importante, a Libor, taxa interbancária de juros computada diariamente pela Associação de Banqueiros Britânicos, tiveram origem nos andares da corretagem de alguns dos maiores e mais antigos bancos de Londres, como o Barclays. Autoridades dos dois lados do Atlântico estão investigando quantos dos grandes bancos participaram.

Os tabloides espancadores de banqueiros presentearam os leitores com histórias sobre os executivos mais bem remunerados do Barclays – um dos quais tem o improvável nome de Rich Ricci – arriscando a sorte nas corridas de cavalo.

Nem de longe Londres é a única cidade afetada por delitos financeiros, ou onde residem banqueiros agressivos. Porém, graças a uma tradição de séculos de conduta financeira refinada, ela se orgulhava de estar num nível acima das outras cidades e, agora, os banqueiros da velha-guarda lamentam que as coisas não sejam mais assim.

O que aconteceu?

A cobiça tomou conta, disse Alexander S. Hoare, sócio gerente da C. Hoare & Company, fundada em 1672, talvez o último dos bancos pertencentes a famílias que durante séculos foram a base cultural e comercial da City, o distrito financeiro londrino.

Como quase todas as antigas instituições ferozmente independentes foram abocanhadas por grandes bancos globais ao longo das duas últimas décadas, o setor financeiro de Londres se tornou menos um clube de cavalheiros para se assemelhar mais a Wall Street, quem sabe grande e briguento demais para ser vigiado de forma eficaz.

"Vimos uma cultura muito diferente invadir todos esses grandes bancos", afirmou Hoare, sentado numa das elegantes salas de estar do banco, de cujas paredes observam retratos de dez gerações de Hoares de semblante severo que dirigiram o banco antes dele e seus primos. "E toda essa regulamentação não resolveu o problema de tomada de risco em excesso."

Não são apenas tradicionalistas como Hoare que dizem que as coisas estão fora da ordem.

Numa série de relatórios do Fundo Monetário Internacional do ano passado sobre o sistema financeiro britânico, o FMI alertou para o fato de a supervisão das atividades dos bancos de investimento e do mercado de trilhões de dólares de Londres "precisar ser aprimorado" e que "sem a supervisão intensiva dos riscos assumidos pelos bancos de investimento, a estabilidade financeira doméstica e global não pode ser garantida".

Sem dúvida, ninguém espera a volta da época em que os acordos eram conduzidos por ex-alunos da tradicional escola Eton durante almoços com duas horas de duração na sala de jantar dos sócios. Com o fim das comissões fixas, em 1986, os bancos norte-americanos e europeus atacaram o mercado, e muito dinheiro logo começou a ser ganho por banqueiros e corretores para lá de ambiciosos, ainda que menos bem conectados, que tomaram suas parcelas dos trilhões de dólares que fluíam pela City.

O Kleinwort Benson e o Morgan Grenfell foram comprados por grandes bancos alemães. O S.G. Warburg terminou nas mãos do UBS. A Cazenove, corretora de valores que atendia a rainha, foi adquirida recentemente pelo JPMorgan Chase.

Em alguns casos, os britânicos tradicionais que comandavam tais instituições permaneceram, mas na maioria dos casos foram embora.

Até mesmo o centro geográfico começou a mudar, com seu núcleo não mais dentro dos 2,5 quilômetros quadrados que englobam a City. Em 2005, o Barclays abandonou sua centenária base na Lombard Street pelas torres reluzentes de Canary Wharf.

Na verdade, foi a invasão bancária e o rápido crescimento de Londres como um centro mercantil global que levou o Barclays a se afastar de suas raízes quacre e a recrutar Robert E. Diamond

Jr. para modelar seu próprio banco de investimentos. Diamond se demitiu em julho após o escândalo da Libor.

Apesar de algumas reclamações sobre o crescente pagamento e risco, a Grã-Bretanha apoiou a transformação. O emprego nos setores financeiros explodiu, com o número de empregados no serviço financeiro passando de 300 mil no começo da década de 1980 para cerca de um milhão hoje em dia. A receita crescente ajudou a equilibrar o declínio do segmento industrial e, na década passada, estimulou o boom do crescimento e da habitação.

Agora, a economia britânica de US$ 2,2 trilhões fica diminuída perto dos US$ 15 trilhões em ativos bancários abrigados na City; metade dos quais tomam a volátil forma de empréstimos interbancários e títulos de derivativos de alto risco.

E o receio é de que o que antes era um ativo agora se torne passivo, com a City se tornando, na verdade, grande demais para regulamentar.

"Se as pessoas estão obtendo ganhos e salários fantásticos, isso quer dizer que o risco está sendo tomado, e é papel do regulador fazer algo a esse respeito", afirmou Gerard Caprio, coautor de "Guardians of Finance", livro que acusa a atitude complacente dos reguladores de ser a principal causa dos recentes escândalos e crises.

O controlador do Banco da Inglaterra, Mervyn A. King, está liderando uma nova equipe de supervisores dentro do banco central, o Comitê de Política Financeira, que vai vigiar os bancos comerciais do país e riscos que representam.

Há muito tempo resistente à ideia de socorro financeiro a bancos, King foi filosoficamente atingido quando ele e o governo tiveram de sustentar bancos britânicos enfermos. Desde então, ele tem liderado o ataque ao exigir não apenas regras mais severas e capital mais elevado como também uma separação das funções de corretagem e de depósitos – proposta que deve virar lei em 2019.

Contudo, há quem se pergunte se as medidas enérgicas sobre os bancos – por meio de impostos mais elevados, exigências de reservas de capital mais altas e, no fim das contas, a ameaça de dividi-los – será tão rígida que o resultado pode muito bem ser menos empréstimos e, quem sabe, a transferência dos bancos para outro lugar.

Durante um discurso recente, Robert Jenkins, membro do comitê de supervisão regulatória de King, sugeriu uma nova e – reconhecida por ele mesmo – irônica solução para a reclamação dos banqueiros segundo a qual eles e o país vão padecer com regras em excesso. E se os reguladores fizessem um acordo com os banqueiros: nada de regras novas e restrições em troca de os bancos aceitarem possuir uma reserva monetária de 20% dos ativos totais – mais do que o dobro da quantidade exigida agora como medida de segurança essencial.

Existe uma chance pequena, é claro, de uma moratória regulatória ser declarada durante uma onda de escândalos, mas a noção remete a um período anterior da história da City quando os bancos comerciais recebiam depósitos e os de investimentos corriam riscos. E como era apenas o capital dos sócios que estava em jogo quando tais apostas eram feitas – não os depósitos dos clientes – não havia uma necessidade grande de regulamentação invasiva.

Terry Smith, CEO da Tullett Prebon, uma corretora londrina, defende uma abordagem mais radical: tornar ilegal que bancos de investimentos e comerciais existam sob a mesma estrutura corporativa.

Antigo membro da City, Smith fala com conhecimento de causa. Ele trabalhou no Barclays quando este era um banco comercial na década de 1970 e voltou à instituição como banqueiro de investimento nos anos 1990 quando a empresa se tornou o colosso financeiro de hoje em dia, com ativos de cerca da metade da economia britânica.

"Quando se misturam bancos de investimento com comerciais, os banqueiros de investimento sempre terminam no comando. Ao dividi-los, você teria bancos comerciais mais fortes e melhores bancos de investimento e, se isso nos levar a uma era passada, bem, não há nada de errado com isso."

Fonte: iG - 24/7/2012

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