{"id":50955,"date":"2012-03-19T00:00:00","date_gmt":"2012-03-19T03:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/127.0.0.1\/acs\/dna-da-riqueza-paulista-jornal-da-unicamp-1932012\/"},"modified":"2012-03-19T00:00:00","modified_gmt":"2012-03-19T03:00:00","slug":"dna-da-riqueza-paulista-jornal-da-unicamp-1932012","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/dna-da-riqueza-paulista-jornal-da-unicamp-1932012\/","title":{"rendered":"DNA da riqueza paulista &#8211; Jornal da Unicamp &#8211; 19\/3\/2012"},"content":{"rendered":"<p>Publicada em:<br \/>Jornal da Unicamp, 19\/3\/2012, segunda-feira<\/p>\n<p># Tese revela como trajet\u00f3ria da fam\u00edlia Lacerda Franco forjou a \u2018locomotiva do Brasil\u2019<\/p>\n<p>CARMO GALLO NETTO<\/p>\n<p>Tese desenvolvida por Gustavo Pereira da Silva junto ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp procura elucidar como se deu a forma\u00e7\u00e3o, a acumula\u00e7\u00e3o e a diversifica\u00e7\u00e3o da riqueza dos membros da fam\u00edlia Lacerda Franco durante o s\u00e9culo XIX. Estudando a trajet\u00f3ria desta fam\u00edlia, o autor procura desvendar a din\u00e2mica da riqueza paulista no s\u00e9culo que antecedeu a transforma\u00e7\u00e3o da S\u00e3o Paulo do caf\u00e9 na capital industrial do Brasil. Para ele, os Lacerda Franco testemunham o que acontecia na prov\u00edncia em uma \u00e9poca: \u201cParti do micro para entender o macro\u201d, diz. A pesquisa documental foi realizada no Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo e nos arquivos da Associa\u00e7\u00e3o Comercial de Santos e das fazendas Montevid\u00e9o (Araras\/SP) e Paraizo (S\u00e3o Carlos\/SP), ambas pertencentes a descendentes da fam\u00edlia. Silva recebeu orienta\u00e7\u00e3o da professora L\u00edgia Maria Os\u00f3rio Silva e contou com financiamento da Fapesp.<\/p>\n<p>Criando porcos, gado, cavalos, mulas, produzindo g\u00eaneros b\u00e1sicos da alimenta\u00e7\u00e3o paulista como arroz, feij\u00e3o, milho \u2013 e inclusive cacha\u00e7a \u2013 para o mercado interno, dinastias nacionais chegaram \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e de caf\u00e9 que as levaram \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de capitais que alavancariam os prim\u00f3rdios da ind\u00fastria paulista, transformando S\u00e3o Paulo na \u201clocomotiva do Brasil\u201d. Uma destas jornadas iniciou-se nos princ\u00edpios de 1800, nas cercanias da vila de S\u00e3o Paulo, nas ent\u00e3o vilas de Atibaia e Jundia\u00ed, em decorr\u00eancia da uni\u00e3o matrimonial de duas fam\u00edlias, os Franco de Camargo com os Lacerda Guimar\u00e3es, dando origem \u00e0 dinastia dos Lacerda Franco. Nessa \u00e9poca, os Lacerda Franco produziam e comercializavam seus g\u00eaneros essencialmente no mercado interno. Mas, j\u00e1 em meados da primeira metade do s\u00e9culo XIX, o capital acumulado nessas atividades passa a ser convertido em canaviais. Foi o que fez o Alferes Franco quando migrou rumo \u00e0s terras de Mogi Mirim e posteriormente Limeira, onde se fixou.<\/p>\n<p>A circunst\u00e2ncia de o a\u00e7\u00facar constituir o principal produto de exporta\u00e7\u00e3o da Prov\u00edncia levou o Alferes \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um patrim\u00f4nio de propriedades agr\u00edcolas na pr\u00f3pria vila de Limeira e na vizinha Rio Claro. Com cuidadosa e calculada condu\u00e7\u00e3o dos matrim\u00f4nios dos herdeiros, a fam\u00edlia controlava a entrada de novos membros de forma a ampliar ou pelo menos manter o capital acumulado, o que era conseguido com a promo\u00e7\u00e3o de casamentos entre primos e mesmo entre tios e sobrinhas, h\u00e1bito depois progressivamente abandonado por causa de problemas gen\u00e9ticos. Em decorr\u00eancia de uni\u00f5es conjugais e concomitante aumento de capital e patrim\u00f4nio, parte do cl\u00e3 dos Lacerda Franco que havia permanecido na vila de Jundia\u00ed passou a migrar para a regi\u00e3o que seria depois denominada de Oeste Paulista, j\u00e1 ent\u00e3o formada por vilas a\u00e7ucareiras.<\/p>\n<p>L\u00e1 se tornaram propriet\u00e1rios rurais e de escravos, em uma sociedade marcada pelo uso extensivo da terra e intensivo da m\u00e3o de obra africana. A fam\u00edlia exerceu papel fundamental no desenvolvimento de algumas localidades como Limeira e Araras. Essas futuras cidades assistiram a concentra\u00e7\u00e3o de poder econ\u00f4mico, pol\u00edtico, militar e religioso dos Lacerda Franco na condi\u00e7\u00e3o de senhores de terras e escravos, vereadores, delegados de pol\u00edcia e vig\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo XIX ocorreu a transi\u00e7\u00e3o das lavouras paulistas da cana para o caf\u00e9 ao longo do Oeste Paulista (regi\u00e3o hoje coberta pela via Anhanguera). A elevada demanda internacional da bebida dinamizava economicamente S\u00e3o Paulo no Imp\u00e9rio e impunha a busca de novas terras, mais distantes de Santos, aumentando os custos de transporte. Simultaneamente, o fim do tr\u00e1fico negreiro agravou a escassez de m\u00e3o de obra. As fam\u00edlias dos produtores paulistas enfrentam esses obst\u00e1culos utilizando os capitais, at\u00e9 ent\u00e3o acumulados, na constru\u00e7\u00e3o no Oeste Paulista das ferrovias necess\u00e1rias, valendo-se da constitui\u00e7\u00e3o de sociedades an\u00f4nimas. A imigra\u00e7\u00e3o europeia subsidiada introduziu o trabalho assalariado e o governo provincial, respondendo a uma demanda da elite cafeeira, encarregava-se de financiar \u201cos intentos orquestrados pelos cafeicultores\u201d, diz o autor do estudo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX o associativismo marcou os Lacerda Franco. A riqueza familiar era reorganizada atrav\u00e9s de matrim\u00f4nios e de heran\u00e7as disponibilizando capitais que passaram a ser empregados na forma\u00e7\u00e3o de sociedades que tinham como caracter\u00edstica predominante a prefer\u00eancia pela associa\u00e7\u00e3o entre familiares. Foi assim que surgiu a Lacerda &amp; Irm\u00e3os \u2013 sociedade agr\u00edcola que produzia caf\u00e9; a J. F. de Lacerda &amp; Cia. \u2013 casa comiss\u00e1ria e exportadora de caf\u00e9; a Lacerda, Camargo &amp; Cia. \u2013 firma industrial que importava e produzia m\u00e1quinas para outras ind\u00fastrias; e o Banco Uni\u00e3o de S\u00e3o Paulo \u2013 que, entre seus ativos, contava com uma f\u00e1brica t\u00eaxtil, a atual Votorantim. Essas empresas atendiam \u00e0 crescente economia cafeeira paulista e \u00e0s demandas da nova organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Exporta\u00e7\u00e3o e importa\u00e7\u00e3o<br \/>A casa comiss\u00e1ria era o principal dos empreendimentos dos Lacerda Franco por englobar o maior n\u00famero de familiares e por se constituir fonte de recursos e expertise aos outros neg\u00f3cios da fam\u00edlia. Inicialmente, a casa comercializava diferentes g\u00eaneros agr\u00edcolas, como caf\u00e9, comprando dos produtores paulistas e vendendo aos exportadores, em geral estrangeiros, no porto de Santos. Mas, simultaneamente, adquiria de importadores bens que revendia a fazendeiros e lojistas que comercializavam esses produtos no varejo. Assim, a comiss\u00e1ria atuava como intermedi\u00e1ria na exporta\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e na importa\u00e7\u00e3o de bebidas, m\u00f3veis, sal, cal, vidro, ferro, papel, tintas, enfim tudo que n\u00e3o era produzido no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Todavia, a casa se distinguiu das cong\u00eaneres nacionais ao expandir suas atividades tornando-se tamb\u00e9m uma firma exportadora. Segundo Gustavo, \u201ca J. F. de Lacerda &amp; Cia. merece destaque por englobar atividades exercidas pelos demais empreendimentos porque, como casa exportadora, mantinha la\u00e7os com firmas estrangeiras que lhe possibilitavam a importa\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas \u2013 como ferro a\u00e7o e vidro \u2013 necess\u00e1rias a outras empresas do grupo. Al\u00e9m disso, importava m\u00e1quinas, equipamentos e bens consumidos pela elite\u201d.<\/p>\n<p>Ele explica que, com a exporta\u00e7\u00e3o direta, a casa comiss\u00e1ria livrava-se da intermedia\u00e7\u00e3o das exportadoras de caf\u00e9 estrangeiras, al\u00e9m de importar diretamente bens de consumo, o que lhe aumentava os lucros. Al\u00e9m de tudo, a posi\u00e7\u00e3o de destaque de membros da fam\u00edlia na sociedade cafeeira facilitava a obten\u00e7\u00e3o de empr\u00e9stimos banc\u00e1rios necess\u00e1rios \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do capital de giro. O sucesso da empreitada se consolidou com a abertura, em 1884, de uma filial da J. F. de Lacerda &amp; Cia. na cidade portu\u00e1ria francesa do H\u00e2vre. Ao se transformar em uma comiss\u00e1ria e exportadora, a casa dos Lacerda Franco, que mantinha com os produtores do interior amplas rela\u00e7\u00f5es, inclusive facilitadas por v\u00ednculos familiares, tornou-se a maior casa exportadora de caf\u00e9 pelo porto de Santos entre 1885\/1886, superando as concorrentes, na maioria estrangeiras, ainda que por um pequeno per\u00edodo.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, a elevada lucratividade da casa comiss\u00e1ria levou um dos seus membros a participar da constitui\u00e7\u00e3o do Banco Uni\u00e3o de S\u00e3o Paulo, em 1890, um dos poucos bancos com o privil\u00e9gio de emitir moeda no in\u00edcio da Rep\u00fablica. Outros s\u00f3cios da empresa fundaram a Lacerda, Camargo &amp; Cia que importava e produzia m\u00e1quinas no Brasil. Os lucros revertiam para a pr\u00f3pria economia paulista ao serem investidos em a\u00e7\u00f5es de ferrovias, bancos, empresas de servi\u00e7os p\u00fablicos, al\u00e9m de im\u00f3veis e novos cafezais.<\/p>\n<p>Gustavo Pereira da Silva explica que em um mundo p\u00f3s-Revolu\u00e7\u00e3o Industrial a demanda por caf\u00e9 por parte dos trabalhadores crescia na mesma propor\u00e7\u00e3o que a necessidade de mat\u00e9rias-primas. Nesse mundo novo, aberto \u00e0s novas possibilidades e \u00e0 livre iniciativa, o caf\u00e9 constitu\u00eda o estimulante perfeito \u00e0s novas necessidades do homem moderno, din\u00e2mico e produtivo. O capitalismo industrial que movia as sociedades centrais era o mesmo que engatinhava na ex-col\u00f4nia portuguesa. Ap\u00f3s a Aboli\u00e7\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o de um mercado de trabalho e consumidor estabelecia as bases para o capitalismo brasileiro. Para ele, a pujan\u00e7a e diversifica\u00e7\u00e3o dos investimentos da fam\u00edlia Lacerda Franco d\u00e3o mostras da for\u00e7a do capitalismo nacional no s\u00e9culo XIX, na figura dos representantes do grande capital cafeeiro, atrav\u00e9s de figuras que, apesar terem seus capitais origin\u00e1rios da lavoura, embrenharam-se nos mais diversos empreendimentos ligados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio, possibilitando a forma\u00e7\u00e3o de uma riqueza portentosa e diversificada, conforme permitiram apreender as an\u00e1lises dos v\u00e1rios documentos da fazenda Montevid\u00e9o e Paraizo, encontrando-se esta \u00faltima ainda nas m\u00e3os dos Lacerda Franco. Sobre a dimens\u00e3o da riqueza acumulada pelos cafeicultores, o autor lembra que o caf\u00e9 tornou-se o primeiro produto da pauta de exporta\u00e7\u00e3o brasileira por volta de 1830 e s\u00f3 perdeu essa posi\u00e7\u00e3o depois de 1950, ocupando o primeiro lugar na economia brasileira por cerca de 130 anos.<\/p>\n<p>Devidamente dimensionadas as diferen\u00e7as das \u00e9pocas, o trabalho suscita ao autor algumas compara\u00e7\u00f5es. O capital \u00e9 sempre canalizado para a atividade de maior lucratividade e isso explica a substitui\u00e7\u00e3o de canaviais por cafezais no s\u00e9culo XIX, bem como a invers\u00e3o ocorrida no s\u00e9culo passado. As associa\u00e7\u00f5es de capitais, familiares ou n\u00e3o, visam \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o de mercados e dos dom\u00ednios econ\u00f4micos e pol\u00edticos. Antes isso se fazia com a aquisi\u00e7\u00e3o de terras e escravos, o concurso das uni\u00f5es familiares e utiliza\u00e7\u00e3o de heran\u00e7as. \u00c0 semelhan\u00e7a da dinastia dos Lacerda Franco na S\u00e3o Paulo do caf\u00e9, ainda hoje, grandes grupos familiares exercem elevado poder na economia nacional.<\/p>\n<p>Publica\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Tese: \u201cUma dinastia do capital nacional: a forma\u00e7\u00e3o da riqueza dos Lacerda Franco e a diversifica\u00e7\u00e3o da economia cafeeira paulista (1803 a 1897)\u201d<br \/>Autor: Gustavo Pereira da Silva<br \/>Orientadora: L\u00edgia Maria Os\u00f3rio Silva<br \/>Unidade: Instituto de Economia (IE)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/127.0.0.1\/acs\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/2012-03-19-unicamp-cafe.pdf\">Confira a reprodu\u00e7\u00e3o da reportagem<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/127.0.0.1\/acs\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/2012-03-19-unicamp-cafe.pdf\"><\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicada em:Jornal da Unicamp, 19\/3\/2012, segunda-feira # Tese revela como trajet\u00f3ria da fam\u00edlia Lacerda Franco forjou a \u2018locomotiva do Brasil\u2019 CARMO GALLO NETTO Tese desenvolvida por Gustavo Pereira da Silva junto ao Instituto de Economia (IE) da Unicamp procura elucidar como se deu a forma\u00e7\u00e3o, a acumula\u00e7\u00e3o e a diversifica\u00e7\u00e3o da riqueza dos membros da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[98],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50955"}],"collection":[{"href":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50955"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50955\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50955"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50955"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acs.org.br\/academy\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50955"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}