A grande questão da pequena empresa

Joaquim Castanheira - Diretor de redação do Brasil Econômico

Dois indicadores divulgados ontem, por entidades diferentes, falam mais entre si do que se poderia supor num primeiro momento.

Primeiro indicador: o Sebrae registrou que, no primeiro semestre deste ano, o faturamento das micros e pequenas indústrias cresceu apenas 2,6% e atingiu R$ 35,7 bilhões.

No mesmo período, os setores de serviços e comércio avançaram, respectivamente, 10,3% e 7,2%. A outra estatística divulgada ontem teve sua origem no IBGE.

Segundo o instituto, o emprego industrial caiu 2% em agosto deste ano, em comparação com o mesmo mês de 2011. Trata-se da queda mais intensa nesse índice desde dezembro de 2009.

A ligação entre os dois fenômenos é clara. Se as pequenas e médias espirram, como demonstra o Sebrae, o nível de emprego na indústria fica resfriado.

A análise conjunta dos dois indicadores (o faturamento tímido das MPEs industriais e a retração no nível do emprego) revela uma faceta antiga e perversa da economia brasileira: a pouca atenção (para falar o mínimo) dada às companhias de menor porte, embora sejam elas responsáveis por 52% do mercado de trabalho no país.

São negócios que faturam relativamente pouco, mas dão trabalho a muita gente. Empresas nessa categoria possuem receita bruta anual máxima de R$ 3,6 milhões e empregam até 99 funcionários. Sua existência vive sob constante ameaça.

Burocracia em excesso, carga fiscal elevada e estrutura tributária complexa são alguns dos principais males que provocam uma alta taxa de mortalidade entre essas empresas.

Mas a ameaça mais letal é a falta de canais de financiamento para as pequenas e médias, sobretudo no setor industrial, como mostra o economista do Sebrae-SP, Pedro João Gonçalves.

"A indústria tem uma maior dependência de financiamento, sofre com a concorrência de produtos importados por causa do real valorizado perante o dólar e enfrenta problemas de competitividade. Esses elementos contribuíram para os resultados considerados fracos em relação aos demais setores", afirma ele.

Apesar do intenso corte nas taxas básicas de juros ocorrido nos últimos meses, o custo do dinheiro ainda é elevadíssimo no Brasil. Mesmo que um pequeno empresário tenha condições de assumir esse compromisso, o caminho para chegar nele é longo e tortuoso.

Os bancos privados nem sempre têm flexibilidade suficiente para entender esse universo. Fontes públicas de financiamento (leia-se BNDES) apresentam uma burocracia que desestimula qualquer espírito empreendedor, por mais ativo e ousado que ele seja.

Diante disso, o governo poderia olhar com muito mais carinho para as MPEs. O dignóstico é conhecido. A cura, também. O que falta é a decisão das autoridades e a disposição para sanar os problemas. Num país habituado a pacotes de incentivos, isso não parece ser tão difícil.

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Joaquim Castanheira é Diretor de Redação do Brasil Econômico

Fonte: Brasil Econômico - 11/10/2012

                                       





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